Título
Escolas sustentáveis: uma análise de experiências a partir do pensamento freireano
Ao considerar o contexto social e político vivenciado no Brasil, percebe-se que há um desmonte
da Educação Ambiental (EA), principalmente, no que tange às suas políticas públicas e uma
pauta em que nada privilegia as questões socioambientais. Diante dessa realidade, existe uma
urgência para estabelecimento de uma EA que seja amparada nas premissas críticas,
emancipatórias e transformadoras para a edificação de uma luta coletiva de resistência e
enfrentamento a todas as adversidades que emergem nesses “novos” tempos. Apesar de não
serem a solução para todos os problemas da sociedade, as escolas sustentáveis podem ser
ambientes que primam pela formação de sujeitos críticos, ao enaltecer abordagens que
propiciam um (re)pensar e atuar sobre os modos de vida e o modelo de sociedade e que
considera os anseios, as experiências e a realidade da comunidade. A transição para a
sustentabilidade nas escolas tem sido defendida pela integração e reestruturação de três eixos
– gestão, currículo e espaço físico – que também podem atuar como ferramentas analíticas e
avaliativas para investigar a realidade desses espaços. Dessa forma, o presente estudo se
propôs a investigar a realidade das escolas sustentáveis, da rede pública de ensino, com o intuito
de elencar e caracterizar elementos essenciais nesses três eixos, articulados ao pensamento
freireano, que possam contribuir para a produção de conhecimentos voltados à formulação e
implementação de práticas e até mesmo propostas políticas públicas comprometidas com esses
espaços educadores. Para a concretização da pesquisa foi realizado um estudo de casos
múltiplos em duas escolas públicas, a Cariri e a Jardim Floresta. Os instrumentos de coleta de
dados consistiram em entrevistas semiestruturadas, diário de campo, projeto político pedagógico
e fotografias. A ferramenta analítica implementada foi a Análise Textual Discursiva. Os resultados
indicaram que a gestão é o eixo primordial para que as escolas desenvolvam práticas educativas
ambientais e apresentem compromissos com as questões socioambientais, ainda que atuem de
modos e com intenções diferentes. Na escola Cariri, a gestão é considerada o eixo mais forte e
que é capaz de conectar as outras dimensões balizadoras, como o espaço físico e o currículo,
sendo esta composta por elementos que a fortificam, como democracia, diálogo, participação,
autonomia, preocupação com a transformação da realidade concreta, estabelecimento de
relação horizontal, educação com função política, respeito pela identidade cultural e saberes de
experiência feito e comunicação, que se conectam com aspectos do pensamento freireano. Na
escola Jardim Floresta, a gestão não é tão democrática, há carência de diálogo e participação,
distanciando-se dos pressupostos freireanos. Já no espaço físico, há uma aproximação por
exercer um cuidado com a “coisa pública” bem como ocorre na Cariri. Apesar de que, na Cariri,
encontra-se ressonância com outros elementos, uma vez que as transformações no espaço
físico favorecem o diálogo e a participação entre os atores sociais. O currículo, em ambas
escolas, é o eixo que necessita de uma maior reestruturação e aproximação com o pensamento
freireano, no qual todos os atores sociais possam ter voz e serem atuantes. Por meio da
investigação, foi possível perceber que as experiências de escolas sustentáveis ou que ainda
estão transitando para a sustentabilidade, como o caso da Jardim Floresta e da Cariri,
evidenciam que não existe um caminho único ou uma “receita” pronta para pensar esse processo
de transformação. Porém, os elementos freireanos constituem indicadores que podem auxiliar a
(re)pensar a ambientalização desses espaços educadores sustentáveis. É possível perceber que
quanto maior a aproximação com esses aspectos freireanos, maior é o senso de pertencimento,
a valorização da identidade cultural, o aprimoramento das relações comunidade-escola e entre
os atores sociais, o desenvolvimento de práticas educativas ambientais mais críticas e
permanentes, bem como a ênfase na luta pela transformação social. Conclui-se que o
estabelecimento de uma educação problematizadora, transformadora e emancipatória favorece
a construção de uma capacidade organizativa e de compromisso político e social, no âmbito da
escola, que passa a ser uma instância importante na luta pela edificação de políticas públicas de
EA.