Título

Migração ambiental compulsória em hidroterritórios: impacto ocasionado nas famílias pelo cinturão das águas, na região do cariri cearense

Programa Pós-graduação
Desenvolvimento Sustentável
Nome do(a) autor(a)
Liana de Andrade Esmeraldo Pereira
Nome do(a) orientador(a)
Izabel Cristina Bruno Bacellar Zaneti
Grau de Titulação
Doutorado
Ano de defesa
2020
Dependência Administrativa
Federal
Resumo

O presente estudo visa discutir a implementação do projeto hídrico Cinturão das Águas do Ceará (CAC) e a migração compulsória ocasionada na região do Cariri Cearense. No trecho que abrange o município do Crato, as comunidades empoderadas do distrito Baixio das Palmeiras, através da mobilização e participação dos equipamentos sociais comunitários, formaram uma hidroresistência denominada Fórum Popular das Águas, com o objetivo de proteger seu hidroterritório. O estudo tem como questão norteadora: quais os impactos na relação pessoa e ambiente provocados pela migração compulsória para os moradores atingidos pelo Projeto Cinturão das Águas do Ceará (CAC)? A metodologia adotada foi a abordagem multimétodos, incluindo instrumentos de abordagem mista, tais como observação participante, entrevistas, aplicação de survey baseado em uma escala adaptada de apego e identidade de lugar e autobiografia ambiental. A amostra foi composta por gestores do projeto, lideranças comunitárias, as comunidades atingidas, e os moradores que tiveram ou que terão suas casas desapropriadas. Para análise dos dados, utilizou-se análise de conteúdo, discurso do sujeito coletivo, tratamento estatístico e autobiografia ambiental. Os resultados do estudo demonstraram diferentes perspectivas na interação da pessoa-ambiente. Os pontos de convergência são o reconhecimento da importância de um empreendimento que se propõe a garantir segurança hídrica; a falta de habilidade na estratégia de abordagem aos moradores; a morosidade dos órgãos de gestão na execução da obra; e a falta de transparência nas informações. O sofrimento ocasionado pela violação dos direitos humanos dos atingidos, impactaram os modos de vida, bem como a saúde física e mental da comunidade, além de causar danos ambientais. A existência de fortes vínculos de apego e identidade de lugar, se observa tanto em nativos como em não nativos, nos homens, mais do que nas mulheres, e na faixa etária de 50 anos em diante. O conflito socioambiental instalado alcançou, como externalidade positiva, a modificação estrutural do projeto, de forma a diminuir o quantitativo de imóveis desapropriados. Conclui-se que o enraizamento e pertencimento dos habitantes em relação à casa, à vizinhança e ao patrimônio natural do lugar está evidenciado na coesão social e satisfação residencial com o espaço apropriado. As ações de mitigação precisam contemplar as relações psicoafetivas das pessoas no território; construir relações cooperativas e de corresponsabilização na gestão partilhada de recursos hídricos; fortalecer a gestão integrada dos recursos hídricos, a participação ativa e informada da sociedade, incluir programas de educação ambiental para crianças, jovens e comunidade a fim de promover a compreensão das condutas humanas no ambiente, pois as relações afetivas com o lugar tendem a reverberar em comportamentos pró-ambientais. Desta forma, o diálogo interdisciplinar sobre as questões ambientais precisa incorporar as contribuições da psicologia ambiental e da psicologia rural, tanto para mitigar quanto para prevenir danos ambientais. O Projeto CAC minimizou os impactos sociais e desconsiderou os psicológicos na vida das comunidades atingidas, portanto, recomenda-se que as políticas públicas voltadas para diminuir a vulnerabilidade devam incorporar estes impactos e ter um novo olhar nas discussões sobre política hídrica, gestão ambiental, planejamento territorial e projetos de desenvolvimento, de forma a adotar medidas que considerem os impactos psicossociais nos cidadãos implicados nessas ações.


Classificações

Contexto Educacional
Data de Classificação:
22/08/2022