Título
Narrativas de resistência : ensinamentos do caso Guarani e Kaiowá para uma educação ambiental intercultural
Esta pesquisa tem por objetivo analisar o conflito territorial e socioambiental que afeta o povo Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul, buscando identificar seu potencial pedagógico para informar práticas de Educação Ambiental pautadas por reflexões, abordagens, orientações metodológicas e opções epistêmicas interculturais. A dimensão empírica será informada pelas narrativas dos indígenas Guarani e Kaiowá, que ao elucidarem o conflito ao qual estão submetidos, expressam uma cosmologia mais inclusiva na qual a agência não é prerrogativa exclusiva do humano. Tomando a narrativa dos Kaiowá como ponto de partida, explicitamos os tensionamentos entre a racionalidade instrumental (o modelo hegemônico de desenvolvimento) que desencadeia processos de etnocídio e ecocídio e a cosmologia comunicada pelos Kaiowá, na qual a natureza é uma alteridade (um sujeito, um parente). Assim, no primeiro movimento da dissertação apresentamos o conflito territorial e socioambiental que afeta os Guarani e Kaiowá e seus efeitos sobre a integridade física e a produção material e simbólica desse povo. Em seguida apresentamos a complexidade desse conflito, evidenciando como os problemas socioambientais contemporâneos, que conformam a crise ecológica e civilizacional em escala global, materializam-se, ganham vida e expressam uma cultura de morte em escala local. Em um terceiro movimento, buscamos demonstrar que é possível potencializar a dimensão política e renovar a abordagem epistêmica da educação ambiental, partindo-se do estudo de um caso emblemático no qual as externalidades e as contradições do desenvolvimento capitalista assumem proporções desumanas. A partir de uma abordagem decolonial, defenderemos duas perspectivas: a pertinência de experiências educativas socioambientais empiricamente fundamentadas, isto é, o estudo sistemático de conflitos territoriais e socioambientais, que explicitem a relação entre o progresso moderno e a crise ecológica; bem como, a necessidade de se acionar, para além dos fundamentos da Educação e da crítica socioambiental, conhecimentos outros, como a sabedoria Guarani e Kaiowá, que comunicam outros mundos possíveis e relações sociedade/natureza baseadas na cooperação e na reciprocidade, convertendo a Educação Ambiental em uma Educação Ambiental Intercultural. Assim, vislumbramos possibilidades revisitação das bases teóricas e metodológicas do campo da Educação Ambiental.