Título
Diálogo entre a escola e o saber-fazer de uma comunidade tradicional: possibilidade de transição para um espaço educador sustentável
Não há como negar que a crise ambiental, gerada pelos padrões insustentáveis de desenvolvimento econômico, tem aumentado a vulnerabilidade da espécie humana e das demais, ameaçando a continuidade de vida neste planeta. Situada no contexto do Grupo de Pesquisa Educação, Estudos Ambientais e Sociedade (GEEAS) do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade do Vale do Itajaí, esta pesquisa objetiva evidenciar a inserção e as contribuições dos saberes e fazeres da comunidade tradicional de Taquaras, situada em Balneário Camboriú, Santa Catarina, no processo de transição da escola local para um espaço educador sustentável. A comunidade pesquisada resiste ao modelo desenvolvimentista apregoado, sendo ainda possível encontrar fortes manifestações culturais relacionadas à produção de farinha de mandioca, às práticas de benzimento, ao Terno de Reis, às brincadeiras de Boi-de-mamão e à pesca artesanal da tainha. De natureza qualitativa, o referencial teórico foi construído pelas concepções de Boaventura Santos (1988, 2007, 2010), Enrique Leff (2001, 2009, 2012) e Paulo Freire (1979, 1996), e tomou como base documental textos relacionados ao Programa Nacional Escolas Sustentáveis. O mapeamento dos saberes e fazeres pertinentes à comunidade foi estabelecido por meio das narrativas de seis moradores, também foram realizadas três entrevistas semiestruturadas com a equipe administrativo-pedagógica do Centro Educacional Municipal Taquaras com o intuito de sanar questões que não ficaram claras durante o período de observação participante, principalmente as relacionadas ao Projeto Político Pedagógico da escola e às ações do PDDE-Escolas Sustentáveis. Os dados foram analisados por meio da Análise Textual Discursiva e submetidos ao aporte teórico da investigação. Os resultados indicam que os saberes e fazeres ativos na comunidade, ainda que não estejam formalizados no currículo escolar, circulam pelo espaço da escola levados pelos educandos, e o CEM Taquaras reconhece essas manifestações culturais como relacionadas à Educação Ambiental, procurando inserir tais questões nas práticas pedagógicas. Entretanto, a escola reconhece que existem questões limitantes para que esses saberes e fazeres da comunidade componham efetivamente o currículo, a saber: desconhecimento e rotatividade de professores, fragilidade na formação docente e interesse do professor. O Projeto Político Pedagógico pode ser configurado também como um limitante, pois não representa o que a escola faz ou é. Quanto às ações que estão sendo implementadas na escola com recursos financeiros do PDDE-Escolas Sustentáveis, considera-se que dificilmente contribuirão com a escola no processo de transição para um espaço educador sustentável, uma vez que se constituíram em práticas pontuais e superficiais. Por fim, conclui-se que a pesquisa cumpre um papel importante, e até então não realizado no campo investigativo, de mapear os saberes e fazeres que caracterizam a comunidade tradicional de Taquaras, contribuindo com o processo de dar visibilidade a uma comunidade tradicional que vive um cenário de descaracterização sociocultural e ambiental. A pesquisa permitiu compreender que os saberes e fazeres de uma comunidade tradicional podem auxiliar a transição para um Espaço Educador Sustentável. Propõe-se, assim, que os muros da escola possam ser "atravessados' pelas histórias de vida e pela ecologia dos saberes e fazeres que transbordam de sua comunidade de entorno, assumindo uma Educação Ambiental comunitária que se deixa aprender e ensinar com os saberes e fazeres, e que é essencialmente transgressora e transformadora da realidade.