Título
Crenças religiosas como caminho para a conservação ambiental: um estudo de caso na comunidade Candomblé Ilê Asé Orisá Dewi
A cosmovisão religiosa é um aspecto cultural que pode influenciar de modo marcante a formação de valores e comportamentos humanos. O Candomblé é uma religião brasileira de matriz africana cuja cosmovisão e as respectivas práticas litúrgicas possuem a natureza como elemento central. A partir desse contexto, este trabalho teve como objetivo compreender crenças ambientais que emergem das crenças religiosas de uma comunidade de Candomblé situada em Sobradinho, no Distrito Federal. Além disso, a pesquisa buscou compreender a contribuição dessas crenças para a conservação do espaço onde desenvolvem suas atividades litúrgicas, incluindo questões relativas à dinâmica de funcionamento do espaço como gestão de resíduos, critérios de escolha dos materiais usados nas atividades litúrgicas, assim como compreender o modo como esses sujeitos avaliam a importância da conservação de outros espaços naturais. Para tanto, foi realizado um estudo de caso, com abordagem qualitativa, onde foram realizadas observações de rituais abertos, como festas em louvação aos Orixás, e entrevistas semi-estruturadas com seis integrantes da comunidade. Os participantes tinham idade entre 24 e 75 anos, sendo 3 mulheres e 3 homens, dentre os quais 4 tinham mais de 21 anos de iniciação. Os resultados revelaram que os sujeitos acreditam que a importância do cultivo e da conservação de plantas e ervas fundamenta-se, sobretudo, em seu uso ritual e medicinal. As plantas não-sacralizadas são importantes por fornecerem alimentos, propiciarem cura física, dentre outros. Alguns acreditam que a própria religião aprofundou sua sensibilidade em relação aos elementos naturais, como cachoeiras, pedreiras e árvores, dentre outros. Observou-se também o resgate aos costumes tradicionais, evitando-se o uso de plástico e a tentativa da coleta seletiva. Os resultados sugeriram que há aproximação entre as crenças ambientais e as crenças religiosas oriundas dessa religião, as quais parecem incentivar comportamentos ecológicos nessa comunidade.