Título
Gestão territorial e ambiental: contribuições de um emergente debate para a afirmação dos territórios sociais indígenas
Historicamente o território indígena no Brasil foi expropriado, sendo que apenas no século XX houve o reconhecimento aos indígenas à manutenção de sua cultura e de seus territórios. Essa conquista foi fruto dos movimentos indígena, indigenista e socioambientalista, os quais vêm atuando na legitimação dos territórios sociais indígenas. Na Amazônia Legal (AL), as demandas indígenas e da conservação da biodiversidade convergiram, facilitando o processo de demarcação das Terras Indígenas (TI), o que resultou na concentração de 94,67% da extensão de TI do país no bioma, destinadas a 60% da população indígena. Na AL, as complexas necessidades indígenas em seus territórios se voltaram à sustentabilidade das TI, suscitando, desde a década de 1990, iniciativas de gestão territorial e ambiental. Desse processo se desencadeou a construção da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (Pngati), a partir da atuação conjunta entre Organizações Indígenas (OI), Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Ministério da Justiça (MJ), representado pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Nesse contexto, essa dissertação objetivou compreender as concepções de gestão territorial e ambiental que embasam a Pngati e a influência desta política na afirmação dos territórios sociais indígenas. Desdobram-se os objetivos específicos: a) caracterizar o processo de emergência, proposição e implementação da Pngati; b) identificar as concepções de gestão territorial e ambiental que a fundamentam; c) analisar a influência da Pngati, em seus diferentes níveis de gestão, na afirmação dos territórios sociais indígenas. Realizou-se uma pesquisa de abordagem qualitativa, a partir das técnicas de pesquisa bibliográfica e documental, observação dos espaços públicos, realização de 8 entrevistas semiestruturadas, com indígenas e não indígenas participantes da construção da Pngati e implementação do Projeto de Gestão Territorial e Ambiental Indígena (Projeto Gati), e a pesquisa participante sobre a atuação da Funai no processo. Os dados foram analisados por meio da análise de conteúdo. A emergência da Pngati esteve vinculada à demanda de se criar na estrutura do Estado um programa de gestão territorial e ambiental permanente que atuasse de modo transversal no atendimento das complexas problemáticas que afligem os territórios indígenas. Esses problemas de ordem territorial, ambiental, cultural, social, econômico, da saúde e da educação foram sistematizados na Minuta de Decreto da Pngati, que em 2012 estava em vias de ser promulgada. As proposições dessa política estão sendo implementadas pelo Projeto Gati em 32 áreas de referência, propondo como principal instrumento de gestão a elaboração dos planos de gestão. Verifica-se que as concepções de gestão territorial e ambiental que movem esse debate não se dão prioritariamente no nível conceitual, mas sim em uma disputa que relaciona gestão territorial à autonomia e autodeterminação indígena em seus territórios e a gestão ambiental à conservação da biodiversidade e dos recursos naturais, como objetivo primordial. No nível internacional o Projeto Gati, é apoiado técnica e financeiramente por órgãos de cooperação internacional cujas motivações remontam as convenções firmadas na Rio 92, como a Convenção da Diversidade Biológica e Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre mudanças climáticas. No nível nacional são executores o MMA, Funai e OI, cujo papel centra-se na articulação com instituições nos níveis estadua