Título
Fabular um povo por vir: alianças afetivas multiespécies tecidas pela Rede Nacional de Pontos de Cultura e Memória Rurais
Essa pesquisa forja caminhos que nos levam a pensar natureza cultura desde a insurreição
micropolítica, a instauração cosmopolítica, a noção de comum e a decolonização da nossa
imaginação conceitual e do nosso inconsciente. Na busca reiterada de três sustentáculos - um
tônus atencional, a cartografia enquanto política cognitiva corporificada e as convocações ao
presente e ao acontecimento -, esta tese esboça enunciados a respeito das questões ambientais
e do Antropoceno, colocando-os sob suspeita e abrindo brechas para pensarmos uma
quase-educação-ambiental que nasce por entre as ruínas de uma política da aceleração e do
desencantamento. Nesta direção, a incursão em estudos decoloniais e multiespécies
possibilitam-nos regar e adubar formas heterogêneas de relação com o mundo e seu caráter
contingente, o que nos aproxima de uma ética aberta à co-criação de mundos. Assim,
tomamos as cosmopráxis e as poéticas públicas de encantamento tecidas no contexto do
Programa Cultura Viva e da Rede Nacional de Pontos de Cultura e Memória Rurais
(RNPCMR) e pensamos a diversidade cultural doravante a margem do debate em torno de
outras formas de envolvimento e radicalização de uma cosmopolítica nos pontos de cultura,
de modo a fazer sobrevir o comum, a articulação em redes e o Bem Viver. A partir de
algumas fabulações entrecruzadas com histórias contadas nas rodas de conversa Como é ser
um Ponto de Cultura Rural: Comunidade e territórios afetivos, realizadas virtualmente em
março de 2021 pelo Sobrado Cultural Rural, localizado no distrito de Barra Alegre, Bom
Jardim (RJ), perscruto a mudança da cultura política de modo a ativar conexões e
composições - às vezes impensadas -, bem como diferenças e comparações na relação com as
palavras humanas e não-humanas. Compomos, portanto, um caminho metodológico que
fabula um povo por vir a partir da força fabulosa dos corpos, da racionalidade corpórea e das
alianças afetivas multiespécies que sobrevêm entre-falas. Defendemos que a rede e o seu
movimento rizomático de articulação tem contribuído para a consolidação de uma
Cosmopolítica e para a construção de uma rede multiespécies autônoma e democrática. Essa
movimentação é, também, uma experimentação de uma quase-educação-ambiental que
levanta questões sobre o feitio das nossas ativações, dos nossos afetos, das buscas por um
comum e das relações multiespécies tecidas nesses territórios. O ato de fabular, criar e
inventar paisagens nestes territórios subverte discursos dados a respeito do que vem a ser
cultura, natureza e as relações que daí emergem. Ambicionamos, assim, ir de encontro às
socialidades mais que humanas que têm sido produzidas nas paisagens co-criadas pela rede,
com ou apesar de intenções humanas, e evocar uma certa radicalidade que engendre alianças
afetivas multiespécies.