Título

Biografias socioambientais cultivadas em hortas familiares em Alta Floresta – Mato Grosso

Programa Pós-graduação
Ambiente e Desenvolvimento
Nome do(a) autor(a)
Iraci da Rocha Wanzke
Nome do(a) orientador(a)
Jane Marcia Mazzarino
Grau de Titulação
Doutorado
Ano de defesa
2023
Dependência Administrativa
Privada
Resumo

Este estudo Biografias socioambientais cultivadas em hortas familiares em Alta Floresta - Mato Grosso – se propõe a investigar algumas questões relacionadas ao desenvolvimento local sustentável, especificamente a segurança alimentar de famílias. Estas são realidades que precisam ser refletidas, principalmente em razão do advento da pandemia causada pelo coronavírus. Uma das mais recentes iniciativas para o caminho de sustentabilidade é através da Agenda 2030, que possui 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Neste trabalho o enfoque deu-se nos ODSs: 2 - “fome zero e agricultura sustentável”; 3 - “saúde e bem-estar”; 11 - “cidades e comunidades sustentáveis”; e 12 - “consumo e produção responsáveis”. Sabe-se que, culturalmente, antes do surgimento das práticas da comercialização na agricultura, as famílias faziam o cultivo de plantas exclusivamente para a manutenção
da subsistência. Todavia, essas práticas culturais foram mudando com a modernização da agricultura, principalmente com o aumento da população e com a urbanização de grandes centros e cidades, fazendo com que aumentasse o contingente de pessoas nos perímetros urbanos. O cultivo de alimentos (hortaliças e
plantas condimentares) foi ficando mais restrita, pela praticidade de encontrá-los em supermercados, feiras, entre outros. Reflexo disso foi a diminuição das práticas de cultivo das hortas familiares, ficando a produção das hortaliças por conta de produtores rurais. Por isso, um melhor entendimento acerca de hortas familiares se torna um importante indicativo para o desenvolvimento local sustentável, uma prática cultural que tem reflexo direto na segurança alimentar das famílias. O objetivo geral
deste trabalho foi, por meio da exploração de biografias, investigar formas de conhecimento e fontes de informação, herdados ou adquiridos, para cultivar hortas domiciliares em Alta Floresta/MT, especificamente aquelas realizadas por famílias que cultivam hortas para consumo próprio, avaliando o impacto dessas práticas para o meio ambiente local durante a plena pandemia do coronavírus. Para tanto, foi realizada uma pesquisa qualitativa, de cunho bibliográfico, documental e de campo, com aplicação de entrevistas, com roteiro semiestruturado, composto por questões abertas e fechadas, realizada com as famílias bem como foram realizadas além de observações sistematizadas. O tratamento dos dados foi realizado por meio da análise textual. Este estudo deteve-se nos significados das experiências de famílias com suas hortas. As histórias de vida revelaram experiências marcantes e verdadeiras, parecendo que abríamos caixas de sentimentos vivos. Estas caixas são reservatórios de vida coletados no espaço entre fronteiras do passado e do presente. As entrevistas relembraram caminhos, trajetos, cheiros e sabores. Pode-se considerar que as plantas com potencial para alimentação, nas suas diferentes categorias de uso constituem-se parte integrante da dieta diária dos pesquisados, auxiliando na redução
dos gastos mensais das famílias, especificamente no quesito alimentação. A prática dos pesquisados apresenta singularidade em relação a outros estudos à medida que evidencia um fenômeno socioeconômico pautado numa produção mais sustentável, o que pode ser observado no melhor aproveitamento de resíduos orgânicos como substratos e adubos, assim como o controle de pragas e doenças vegetais de baixo custo e de pouco impacto ambiental. Além disso, o uso para o consumo da família sem preocupação de venda com a produção excedente também pode ser considerado uma condição diferenciada entre os achados no presente estudo. Entre as motivações dos pesquisados para possuírem sua própria horta, está a melhoria na qualidade de vida, rica fonte de nutrição, auxílio na saúde mental, segurança alimentar, ampliação da renda familiar, interação com os membros da família e melhoria da paisagem, o que converge com trabalhos visitados na revisão literária realizada para o presente estudo. As hortas constituem-se em importante espaço pedagógico no qual as pessoas do núcleo familiar têm a oportunidade de realizarem cotidianamente
importantes experiências de plantio e manejo de espécies vegetais diversas. Esses espaços oportunizam a construção e a ressignificação de conhecimentos pautados na história de vida e das relações criadas com as plantas a partir de vínculos familiares e de parentescos, fazendo assim, com que esse rico saber quanto à arte de plantar, colher e conservar permaneça vivo e perpetue. A Pandemia do Covid-19 (Coronavírus Disease 19) não trouxe mudanças relevantes para com os cuidados e cultivos da horta para a maioria dos pesquisados. No entanto, houve relato de alguns terem ficado em casa por mais tempo, aumentando a dedicação para com a horta. O estudo evidencia o quanto as histórias de vida dos pesquisados entrelaçam-se entre si e se correspondem mutuamente à medida que desvelam o quão singular é o ser humano em sua individualidade. Denota que as hortas urbanas, rurais e rurbanas constituem-se em espaços sociais e sustentáveis de aprendizagem e de resistência à lógica capitalista que impera em nossa sociedade. A relação do alta-florestense com o ambiente local pode ser visualizada a partir dos quintais urbanos, refletindo um misto de uso e conservação dos recursos naturais com ênfase no atendimento de
necessidades primárias da família. Observa-se, ainda, que o tema em pauta tem figurado pouco nas pautas de discussão das políticas públicas do Brasil, ao passo em que deveria estar situado no rol dos temas de ordem relevante uma vez que diversos estudos, como este, têm indicado a necessidade das políticas públicas se ocuparem da agricultura rurbana, especialmente quanto ao uso do solo, saúde ambiental, desenvolvimento social e incentivo para a sua prática.


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