Título
Educação Ambiental e as aproximações entre empresas e escolas: o caso do programa Pró-Mananciais na Bacia Hidrográfica Sapucaí
As ações de cariz ambiental, promovidas por empresas nas escolas de educação básica, despertam a nossa atenção para tentar compreender as possibilidades de incentivar o exercício da práxis política entre os jovens. Dessa forma, direcionamos nossas indagas às características das ações promovidas pelo setor empresarial no espaço escolar, como nas ações do Programa Socioambiental de Proteção e Recuperação de Mananciais – Pró-mananciais, liderado por empresas público-privadas. Para tal, procuramos identificar e analisar as compreensões sobre a temática ambiental, o processo educativo e as perspectivas da dimensão da práxis política a partir das relações entre o Pró-mananciais e uma escola de educação básica, situada na Bacia Hidrográfica do Rio Sapucaí. Os dados foram obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas com profissionais da educação e membros do Pró-mananciais. Também foi possível observar reuniões promovidas pelo programa, destinadas à definição de ações na localidade em questão. Contamos com o auxílio dos softwares Transkriptor, para a transcrição dos áudios, e do NVivo para a sistematização e análise dos dados. Adotamos a Análise de Conteúdo, na modalidade da Análise Temática, como procedimento metodológico. Os resultados e as discussões suscitadas indicaram que as ações do Pró-mananciais têm potencial de influenciar na formação docente e discente. Essas ações, sobretudo, favorecem o estabelecimento de consensos sobre a Temática Ambiental e o processo educativo no espaço escolar, o que pode ser interpretado como o estabelecimento de um regime de obstrução do ensino. Nesse sentido, as relações entre o quadro de catástrofes ambientais e o modelo de sociedade capitalista foram abordadas superficialmente, limitando as discussões ao âmbito da individualidade e das ações imediatas. As ações de cunho ambiental executadas pelo Pró-mananciais, na referida escola de educação básica, atribuíram os problemas ambientais às escolhas pessoais, focando a sua mitigação nos aspectos tecnocientíficos e na mudança de comportamentos. Discussões como essas podem ocultar as possibilidades de questionar e pensar criticamente o modelo de sociedade capitalista. Ficou evidente que a escola tem sido palco para a disseminação de compreensões, valores e práticas que são caras ao Pró-mananciais, na comunidade local. Apesar de alguns profissionais da educação terem questionado essa postura do Pró-mananciais, não houve posicionamentos contrários. Essa constatação sugere haver um silenciamento, ainda que involuntário, das vozes dissonantes dentro da escola. Somado a isso, notamos que a ideia de participação coletiva, que é uma das bases das ações ambientais do programa, foi ressignificada, não permitindo que a comunidade, na prática, participasse dos espaços de tomada de decisões. Esse processo de privatização do espaço escolar pode contribuir na manutenção de um modelo educacional que enfatiza o individualismo e a mudança de comportamento, ao invés de preconizar um ensino crítico e emancipatório. Dessa forma, a relação entre o Pró-mananciais e a escola contribui na cristalização de significados acerca da práxis política, diferentes daqueles que consideramos pertinente à formação dos estudantes. Por fim, é crucial que os profissionais da educação, especialmente aqueles que estão envolvidos nas relações de empresas com escolas, reflitam e se oponham aos impactos que as ações ambientais empresariais têm causado no processo educacional.