Título
Saberes tradicionais e narrativas míticas: da cosmologia do povo Shanenawa à educação ambiental
Há uma riqueza social difundida entre povos indígenas que se configuram como
sociedades únicas, diferentes entre si, porém com interesses em comum, como direitos
coletivos, autonomia sociocultural e conservação do meio ambiente. Por meio da
territorialidade, a ancestralidade vive e se renova em cada relato, o que permite aos
povos, que mantêm a oralidade como meio de comunicação primordial, reavaliarem a
própria existência e encontrarem caminhos de convivência com a natureza. Neste
contexto, o presente estudo analisou o valor cultural da sociobiodiversidade local de um
povo indígena com base na ancestralidade, na territorialidade e na oralidade com vistas
à educação ambiental. O método para a pesquisa desenhou-se em natureza descritiva e
exploratória e em dois aspectos: o primeiro configurou-se pela natureza histórica, com
fontes bibliográficas, sendo a interpretação das informações coletadas nas publicações
científicas desenvolvida em diálogos com publicações literárias relacionadas ao assunto
principal. A partir da produção de autores indígenas e não-indígenas, exploraram-se as
implicações no desenvolvimento de conceitos e vivências relacionadas à educação
ambiental, caracterizada por se manifestar no modo de vida de comunidades tradicionais
e na sensação de pertencimento a terra. O foco dessa educação ambiental são as
profundas raízes que definem a identidade e mantêm-se em constante movimento, sendo
repassados conhecimentos de geração em geração. O segundo aspecto partiu de
perspectiva qualitativa, com coleta de depoimentos e observação de comportamento em
um estudo de caso na Amazônia, com indígenas da etnia Shanenawa, na aldeia Kene
Mera (Acre, Brasil). A coleta de dados em campo ocorreu pela ação direta em grupo
focal e entrevistas semiestruturadas, valendo-se o pesquisador de pesquisa etnográfica e
apontamentos por meio da arte, para conectar-se aos atores, bem como registrar e
integrar as proposições da pesquisa à educação ambiental. Em imersões guiadas por
pajés na Floresta Amazônica, foram realizados registros do uso de plantas medicinais e
sua relação com as narrativas míticas, que os mantêm em conexão íntima com os
elementos da natureza. Observou-se a necessidade de integração do conhecimento
tradicional, com vistas à educação ambiental, incluindo-se saberes ancestrais, como
caminho para a interpretação de sistemas socioambientais complexos. Conclui-se que o
reconhecimento dos povos originários no tocante à cultura, relações com a natureza e
saberes tradicionais implica na aproximação de um mundo possível capaz de fertilizar o
campo do conhecimento de construção teórica ampliando-o para um campo de
construção civilizatória. Essa aproximação advinda da cosmovisão resultou em uma
proposta denominada Educação Ambiental Orgânica com a finalidade de atuar na
conjunção de saberes ancestrais de povos indígenas e de conhecimentos
contemporâneos. O estudo tem aderência aos Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015:
objetivo 4 - Educação de Qualidade: Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de
qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e
todos; e objetivo 15 - Vida Terrestre: Proteger, recuperar e promover o uso sustentável
dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a
desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade.