Título
Sensibilização ambiental no empoderamento de comunidades tradicionais a partir da agricultura orgânica: estratégias participativas para valorização de espaços de saberes
O Brasil é conhecido por seu potencial de produção e exportação agrícola, porém os custos socioambientais por vezes são altos. Para o mercado interno, a produção de alimentos depende da agricultura familiar, com 77% dos estabelecimentos, mesmo representando somente 23% da área agrícola total. A agricultura orgânica constitui uma forma sustentável de produção, com princípios de saúde, ecologia, justiça, cuidado com o ambiente e com quem produz o alimento. Observa-se, neste contexto, a importância da produção familiar orgânica para diversas comunidades tradicionais como atividade econômica e de manutenção de territorialidade. O presente trabalho objetiva desenvolver estratégias participativas de sensibilização ambiental com vistas à valorização de espaços de compartilhamento de saberes com comunidades tradicionais, a partir da agricultura orgânica, em ações integradas de ensino, pesquisa e extensão. Para tanto, realizou-se uma pesquisa etnográfica, associando ações junto a agricultores familiares de comunidades remanescentes quilombolas de um município da Região Metropolitana de Curitiba, Paraná (Brasil). O grupo possui certificação participativa para cultivo de orgânicos. A interação contou com o apoio de representantes de órgão técnico público e membros da Academia, em reuniões sobre alternativas de escoamento da produção orgânica e valorização de bioeconomia a partir da sociobiodiversidade local. As discussões levaram à implementação de uma feira semanal de produtos orgânicos e artesanais em um campus universitário visando ao fortalecimento do grupo de agricultores, ao aproximar seus conhecimentos tradicionais sobre ambiente, agricultura e consumo sustentáveis, em relação aos consumidores urbanos. Na percepção de lideranças do grupo, o novo espaço de escoamento traz contribuições para a renda das famílias envolvidas, mesmo ainda demandando melhorias quanto à organização e operacionalização como negócio. Observou-se o empoderamento gradativo e contínuo dos membros do grupo, ao atuarem como multiplicadores socioambientais a partir de seus conhecimentos trocados com os consumidores. Discussões sobre desafios ambientais e climáticos enfrentados, bem como práticas sustentáveis adotadas e ideias para o aproveitamento integral dos alimentos foram identificadas em diversos momentos de comercialização na feira. A relação que esses agricultores têm com o alimento e com o ambiente, bem como a acolhida das demandas dos consumidores que buscam um modo de vida mais saudável e sustentável resultaram em um estímulo para a feira propiciar ricos diálogos socioambientais. O resgate da ancestralidade e da memória afetiva atrelada ao alimento
facilitaram o relacionamento dos agricultores com os clientes e contribuíram para o grupo perceber sua posição de valor para a manutenção da sociobiodiversidade. Os resultados desta pesquisa unem as esferas de pesquisa, ensino e extensão, ao demonstrarem como espaços informais e interdisciplinares de compartilhamento de saberes com comunidades tradicionais, como a feira implantada em um campus universitário, podem incentivar o consumo consciente e sustentável a partir da agricultura orgânica. Parcerias com comunidades tradicionais podem, então, contribuir para troca de vivências, empoderamento a partir de seus saberes, na busca por renda digna com a produção de alimentos orgânicos, bem como promoção do bem-estar de quem consome e do ambiente. O presente trabalho contribui para os objetivos do desenvolvimento sustentável da Agenda 2030, especialmente no tocantes aos ODS 2, 3, 4, 10, 12, 13 e 15.
Palavras chaves: Educação ambiental. Comunidades remanescentes quilombolas. Agricultores familiares. Diálogo de saberes.