Título
A educação ambiental como “conversa complicada”: entre experiências vividas e o currículo escolar
Em virtude do avanço neoliberal e conservador no campo curricular e das articulações
segregadoras vivenciadas nos últimos anos, como reflexo da mutação climática apontada por
Bruno Latour, este trabalho tem por objetivo investigar as potencialidades das experiências
vividas de docentes na construção de uma Educação Ambiental no currículo escolar. De acordo
com William Pinar, ao visualizar o currículo como parte constituinte das conversas
complicadas, tecidas nos contextos escolares, permitimos o investimento subjetivo de cada
terrestre escolar, motivando interesses, desinteresses, histórias e experiências na construção
curricular. Ainda, por vias do currere, compreendendo o currículo como algo vivido em si
mesmo e com outros, abrimos espaço para pensar a interferência docente e de seus ambientes
como elementos centrais nos conhecimentos lecionados nas disciplinas acadêmicas e nas
dimensões presentes em seus saberes-fazeres, como por exemplo, na Educação Ambiental.
Nesse sentido, concordando com Martha Tristão, a Educação Ambiental enquanto terreno
possibilitador de aprendizagem com/no/sobre o meio ambiente, pode estabelecer redes de
aprendizagem entre os terrestres de um dado contexto, ampliando suas percepções sobre o
espaço (co)habitado e as diferenças que emergem. Através da etapa regressiva do método
currere, pautada na regressão ao passado e no estabelecimento de paralelos com o presente,
conversas complicadas foram tecidas com quatro docentes de uma instituição particular,
localizada na cidade do Rio de Janeiro, a fim de que a percepção sobre sua construção curricular
fosse percebida. As autobiografias, marcadas por uma arquitetura do eu, mostraram a ligação
entre memórias de vida das/dos docentes, como em seu processo de escolarização e em sua
formação inicial, levando em consideração as práticas e epistemologias desenvolvidas hoje, no
que diz respeito à Educação Ambiental trabalhada. Ainda, as redes de aprendizagem
mostraram-se como importantes meios formativos, de modo que as subjetividades e as
vivências de cada terrestre ganharam centralidade nos processos de formação (inicial e
continuada). Diante do cenário político atual, marcado por uma emergência ambiental e
curricular, as conversas complicadas tecidas pelas professoras entrevistadas e pelos professores
entrevistados apresentaram-se como importantes instrumentos de resistência frente às políticas
públicas normatizadoras, permitindo o entrelaçamento das subjetividades e vivências com a
Educação Ambiental, desafiando as estruturas coloniais e individualistas, pulverizada por novas
formas de globalização. Como fruto desta pesquisa, o produto educacional, com o objetivo de
centralizar as experiências no campo de produção de conhecimento, partiu de vivências
pessoais próprias no desenvolvimento da pesquisa acadêmica para construir um diário
autobiográfico, no formato de livro digital, sobre a pesquisa, de forma a mobilizar uma reflexão
sobre o Ensino de Química e de Educação Ambiental, a fim de se complicar a conversa sobre
currículo dentro das realidades docentes.