Título
História do currículo e da disciplina escolar Ciências entre as décadas de 1960 e 1980: as “três vidas” de Nilza Vieira, uma professora inesquecível
Esta tese, posicionada na interface entre os campos do Currículo, da História da Educação e
da História de Vida, investiga a trajetória e as inovações curriculares de Nilza Bragança
Pinheiro Vieira, professora de Ciências que de 1963 a 1997 lecionou na rede municipal de
educação do Rio de Janeiro. Seu recorte temporal, estabelecido entre as décadas de 1960 e
1980, focaliza e contempla momentos singulares de sua carreira e transformações em seus
saberes e práticas docentes, caracterizando “três vidas”. Neste intervalo, a docente dialogou
intensamente com diferentes movimentos e tendências pedagógicas que buscavam mudar os
currículos de Ciências no Brasil, conseguindo elaborar práticas de ensino que a notabilizaram
enquanto uma professora inesquecível, segundo a categorização de Lopes (2013a; 2016) e
como uma intelectual de acordo com as ponderações oferecidas por Sirinelli (2003). Do
ponto de vista teórico, a pesquisa recupera as discussões sobre história do currículo e das
disciplinas escolares suscitadas por autores como Goodson (1995; 1997; 2008) e Chervel
(1990). Ainda com Goodson (2015; 2019; 2020) são pensadas as questões que atravessam os
currículos, as narrativas pessoais e as histórias de vida dos atores escolares. Em outra frente
de análise, Pollak (1989; 1992), Nora (1993) e Le Goff (1996) são acionados para se refletir
a respeito das memórias produzidos por, sobre e com Nilza Vieira. No que tange aos debates
sobre a mediação cultural e o engajamento intelectual da professora, Sirinelli (1996; 2003) e
Alves (2020) fornecem subsídios às discussões. Do ponto de vista metodológico, a
investigação apostou na triangulação de diferentes fontes históricas e cada material foi
interpretado de acordo com referenciais específicos, conforme recomenda Goodson (2015).
Deste modo, transcrições de entrevistas produzidas com a metodologia da História Oral
foram lidas a partir das considerações presentes em trabalhos como os de Portelli (1996;
1997; 2010) e Bourdieu (1996). O uso das fotografias como fontes históricas foi direcionado
por Mauad (1996), Vidal e Abdala (2005) e Bourdieu e Bourdieu (2006). Em Luca (2008) e
em Campos (2012), encontramos diretrizes para utilizar reportagens que circularam pela
imprensa, enquanto os procedimentos de análise documental de cunho histórico foram
balizados por Vieira et al. (2000). A análise do corpus documental que sustenta as bases
empíricas deste trabalho permite que se defenda a tese de que Nilza Vieira pode ser
reconhecida como uma professora intelectual que participou ativamente do Movimento de
Renovação do Ensino de Ciências entre as décadas de 1960 e 1970, bem como, nos anos
1980, integrou iniciativas de popularização da educação ambiental e se inseriu concretamente
nas disputas pela formulação de currículos para a disciplina escolar Ciências no contexto
carioca, inclusive participando da formação de docentes de Ciências e Biologia. Lidando com
distintas pressões, tradições, conflitos, afinidades e oposições, a docente construiu uma rede
de sociabilidade que lhe permitiu operar com diferentes tendências pedagógicas e produzir
inovações curriculares que marcaram seu magistério.