Título
Os discursos sobre a sustentabilidade e as comunidades tradicionais em teses e dissertações em educação ambiental
Pensar a Sustentabilidade a partir dos conhecimentos construídos pelos povos e comunidades
tradicionais com base no “Bem Viver” é uma proposta que se fundamenta em um pensamento
decolonial sobre a construção do conhecimento hegemônico científico. Tem como base o
conhecimento construído por povos que lidam com elementos do meio natural de forma a
subsistirem, não imprimindo valor econômico aos recursos naturais. Ao analisarmos a
Sustentabilidade dentro dessa perspectiva em estudos científicos, é possível traçarmos um
panorama de como esses discursos têm sido construídos. Esses discursos contribuem também
para pensar sobre a crise ambiental, seus efeitos e atores envolvidos. Este trabalho, portanto,
tem como objetivo analisar quais significados e sentidos são construídos nos discursos
acadêmicos quando tratam da relação entre Sustentabilidade e comunidades tradicionais e para
alcançar este objetivo geral, trilhamos os seguintes objetivos específicos: 1- Caracterizar o
contexto de produção de pesquisas em educação ambiental sobre Sustentabilidade e
comunidades tradicionais; 2 – Construir os sentidos para a ideia de comunidades tradicionais
nas teses e dissertações analisadas. Para tanto selecionamos, dentro da plataforma EArte, por
critérios de busca delimitados na Sustentabilidade e comunidades tradicionais nas pesquisas em
Educação Ambiental, uma Dissertação de Mestrado e uma Tese de Doutorado. Ambas foram
analisadas qualitativamente em uma perspectiva da análise dialógica do discurso em acordo
com Bakhtin e o Círculo. construímos seções de análises, que correspondem a três temas, em
que ambos os trabalhos enunciavam: comunidades tradicionais e o território, comunidades
tradicionais e o manejo da biodiversidade, comunidades tradicionais e desenvolvimento
sustentável. No primeiro tema, elementos discursivos dão ao território diferentes sentidos, tanto
para os sujeitos das comunidades, quanto para o processo de desenvolvimento. O segundo tema
refere-se ao modo como os povos tradicionais se complementam com os demais elementos da
natureza sem estabelecer relação financeira com ela. Na relação das comunidades tradicionais
e o enunciado “desenvolvimento sustentável”, é possível verificar suas contradições frente ao
enunciado “Sustentabilidade”. Verificamos, assim, que o território assume distintos “papeis”
de acordo com o contexto em que é enunciado. A relação com o meio natural se constrói de
acordo com que o sujeito determina como base de existência, seja pelo capitalismo e
acumulação de bens, seja pelo “Bem Viver” via cultura. Apesar de muitos elementos
aproximarem o discurso de uma proposta para a Sustentabilidade pautada nas comunidades
tradicionais, há alguns posicionamentos demarcados por contradições enunciativas, como a
utilização de discursos oficiais governamentais, que se reiteram e se reverberam por detrás do
conceito de Sustentabilidade, com ênfase a amenizar os impactos ambientais gerados pelo
crescimento econômico. Essa situação converge para o que tem sido usual: tratar o
desenvolvimento sustentável como sinônimo de Sustentabilidade. Por mais que existam as
aproximações nas discussões entre EA, Sustentabilidade e comunidades tradicionais nas
pesquisas, ainda vemos perpetuar contradições que tendem a ter as práticas das comunidades
tradicionais e o “Bem Viver” como forma de alcançar uma proximidade com o meio natural em
complementaridade