Título
Das marés e Marias dos fundos da Baía de Guanabara: experiências de educadoras ambientais comunitárias na construção da esperança e da dignidade
Esta pesquisa se debruça sobre o diálogo entre a Educação Ambiental e a Educação Popular, a partir de uma experiência de Educação Ambiental de base Comunitária em comunidades da Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, que têm nas mulheres das classes populares suas principais agentes. Hoje, já se sabe que a degradação ambiental, inerente ao sistema capitalista global, recai de forma mais intensa sobre as mulheres e as crianças dos países empobrecidos. A expropriação da terra, a privatização das riquezas ambientais e a destruição da biodiversidade afetam diretamente as atividades de subsistência e cuidados desenvolvidas pelas mulheres, arrastando-as para a pobreza. Como consequência, as mulheres das classes populares vêm se posicionado como protagonistas de resistências socioambientais comunitárias e, também, se dedicando a atividades de educação ambiental em seus territórios. Apesar disso, muitas vezes, este protagonismo não é reconhecido e a participação das mulheres nas instâncias de tomada de decisão sobre as questões ambientais é sub-representada, enquanto a atuação dos técnicos e especialistas assume papel central. Partindo destas reflexões e tomando como base nossa experiência de longo prazo com o grupo de educadoras junto à ONG Água Doce – serviços populares, buscamos compreender a inserção das mulheres das classes populares nas experiências de Educação Ambiental de base Comunitária, bem como levantar os ensinamentos que vêm desenvolvendo a partir de sua práxis cotidiana, comunitária e ambiental. Levantamos a hipótese de que as experiências destas educadoras em seus territórios entram em diálogo com os Movimentos de Mulheres e com os Ecofeminismos do Sul, dando forma a dinâmicas pedagógicas populares alternativas e contextualizadas, que contribuem com a perspectiva da Educação Ambiental de base Comunitária. Com o objetivo de elaborar uma metodologia de pesquisa participativa e popular, contamos com os referenciais da IAP, da investigação temática freiriana e das dinâmicas dos círculos de cultura. A partir daí, desenvolvemos o que chamamos de Pesquisa Ação Pedagógica, onde a investigação temática sobre a experiência comunitária das educadoras fez emergir situações-limite e inéditos viáveis, traduzidos em eixos temáticos, utilizados na geração coletiva de dados para a pesquisa, nos processos formativos do grupo e na elaboração de atividades ambientais destinadas à comunidade que foram desenvolvidas pelas educadoras. Nesse processo, a análise de suas narrativas deu origem a eixos temáticos compostos por subtemas, que traduziram as dimensões apontadas como fundamentais dentro do trabalho ambiental comunitário em sua perspectiva. Alguns dos subtemas foram: história de vida das mulheres, a vida das crianças, o trabalho com as mulheres, violência e exclusão, saberes tradicionais das ervas, a centralidade da fé, formação coletiva e a educação que parte do comunitário para o ambiental. A emersão das histórias invisibilizadas evidencia o absurdo ambiental da fome e da exclusão social como obstáculo para a garantia dos direitos ambientais. Por outro lado, as mulheres permanecem buscando alternativas em defesa da vida, enfrentando a lógica capitalista de exclusão e mercantilização, a partir de outra epistemologia baseada no cuidado e respeito ao outro. Suas vivências, aliadas à experiência no trabalho comunitário de cuidados, vêm possibilitando a reapropriação de saberes tradicionais populares e novos saberes ambientais para elaboração de práticas pedagógicas ambientais destinadas às comunidades onde vivem. Assim, assumem um papel de intermediárias entre a exclusão e a esperança, entre o comunitário e o ambiental, entre os saberes populares e os científicos, entre a vida e a morte, habitantes das fronteiras, do entre mundos.