Título
Transição agroecológica em uma abordagem sociocultural: ressignificação de práticas agrícolas, localidades e modos de vida
Partindo da noção de transição no campo da agroecologia, esta tese se remete a uma análise deste processo por meio das relações socioculturais que o constituem, com base em três estudos de caso no município de São Carlos. Ainda, a pesquisa teve como objetivos compreender as motivações que levam as/os agricultoras/es a aderirem a modos de produção de base ecológica; analisar as novas relações socioambientais decorrentes da transição agroecológica; desvelar os processos de ressignificação e de criação de novas identidades vinculados à agroecologia; investigar os processos de relocalização originados a partir das novas práticas produtivas concebidas; comparar os diferentes processos de transição e as respectivas nuances entre os casos estudados, levando em consideração os contextos sociais e históricos específicos de cada realidade. A hipótese que se apresenta é a de que a transição agroecológica, entendida como um processo sociocultural acionado por múltiplos elementos, promove alterações substanciais nas relações socioambientais dos sujeitos que a vivenciam, o que ocorre através da adoção de novas práticas produtivas de base ecológica, da mudança de valores, da construção de novas redes de comunicação e de colaboração entre as/os diversas/os atrizes/ores sociais, da relocalização e transformação a nível territorial – em uma dinâmica que flui do desencantamento em relação ao modo de produção agrícola convencional e às condições de vida subalternas que grande parte dos sujeitos participantes da pesquisa vivenciaram durante o percurso de suas vidas – associada aos desafios inerentes a esta ruptura. Para tanto, adotou-se como referenciais analíticos a noção de “evento crítico”, de Veena Das, e de “eficácia simbólica”, de Lévi-Strauss, que foram adaptadas para a compreensão dos acontecimentos motivadores e/ou de ruptura que levam os sujeitos e grupos sociais a aderirem ao engajamento na transição, e o processo de relocalização alimentar. Foram realizadas entrevistas com os grupos sociais referidos, com enfoque na abordagem de trajetórias de vida, além de metodologias participativas e observação participante; as narrativas coletadas foram examinadas por meio da Análise Textual Discursiva. Categorias de análise foram desenvolvidas referentes ao período que antecede o engajamento no processo de transição, entre os quais se encontram as origens e modos de vida, a luta pela terra e acontecimentos motivadores e/ou de ruptura. A partir desse instante, novas relações socioambientais foram tecidas por esses grupos, analisadas a partir de fatores como a busca por novos conhecimentos e técnicas produtivas adotadas; acesso a políticas públicas e projetos de desenvolvimento; autoconsumo e segurança alimentar; ressignificação de valores associados à produção agroecológica; relocalização; estratégias de comercialização e certificação e desafios e/ou conflitos superados/presentes, entre outros. Deste modo, enquanto resultados, a pesquisa desvela que o engajamento na transição agroecológica requer conhecimentos específicos e se relaciona à criação de sentido e à construção de relações de confiança; exige dedicação constante e se vincula a valores que vão além do monetário. Um processo, portanto, que é acionado por razões endógenas e exógenas, em que os acontecimentos motivadores possuem papel crucial, em diferentes realidades de vida no meio rural.