Título
Fenomenologia transmidiática: cartografando o clima em Mata Cavalo
Sob o guarda-chuva do projeto que envolve cinco países, a “Rede Internacional de Pesquisadores em Justiça Climática e Educação Ambiental (Reaja)”, que tem fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat) e é coordenado pelo Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte (Gpea), busquei responder aos desafios contemporâneos de comunicar o clima em suas complexas dimensões. Reconhecendo a importância de comunicar a emergência climática como meta primeira, no recorte específico, interpreto as construções das narrativas transmidiáticas de jovens do quilombo de Mata Cavalo, MT, estudantes da educação básica da Escola Estadual Professora Tereza Conceição Arruda. A transmidialidade foi o fio condutor da educomunicação, além de assumir a impossibilidade da neutralidade nas ciências. Estimulados por processos formativos, fóruns de discussões e expressões da arte, os estudantes narraram sobre as dificuldades enfrentadas com a crise climática, quais posturas de resistência realizaram e quais conceitos sobre injustiças climáticas eram possíveis num quilombo. A metodologia de investigação utilizada foi a Cartografia do Imaginário de Michèle Sato, que possui forte alicerce na fenomenologia de Gaston Bachelard. Procurei interpretar diversas linguagens da transmídia nos processos de construção da travessia investigativa, sem negligenciar o potencial dos resultados. Educação, comunicação, entrevistas, expressões artísticas e diálogos nas cartografias demarcaram os processos da pesquisa em grupo, com a elaboração de quatro argumentos midiáticos: texto, áudio, vídeo e fotografia, esta última de enorme preferência entre os jovens. As queimadas são problemas recorrentes na realidade quilombola, bem como a má distribuição da água e os confrontos socioambientais relativos à luta fundiária. Sem fechar o espectro a outras incursões, o colapso climático ainda é pouco percebido pelo senso comum, mas mais notada após a proposta educomunicativa socioambiental construída pelos estudantes. A comunidade quilombola participou da educomunicação e recebeu a formação e, portanto, consegue narrar suas próprias histórias ao denunciar a crise climática ou ao anunciar narrativas de beleza do local, pois compreendem que retratar o quilombo pelo viés positivo é uma forma de resistência e orgulho para valorizar a permanência em seu território.