Título
Conflitos socioambientais que afetam a soberania alimentar de comunidades do cerrado do pantanal – MT
Esta pesquisa de dissertação inscreve-se na prática cotidiana de duas comunidades culturalmente singulares: Quilombo Laranjal e a Comunidade Tradicional Zé Alves. Elas são formadas por camponeses/as que desenvolvem atividades de produção alimentar (agricultura e pecuária) e de extrativismo vegetal, em regime familiar e comunitário, no município de Poconé, estado de Mato Grosso. O deslocamento da fronteira agrícola tem trazido significativos danos ambientais que ameaçam a soberania alimentar destas populações. As mudanças no uso e na ocupação do solo têm se caracterizado em um quadro de injustiça ambiental, tendo em vista que as atividades do agronegócio são altamente predatórias e causam graves danos socioambientais. As consequências ocorrem de maneira desigual, pois os grupos sociais menos desprovidos de condições técnicas e financeiras são os mais prejudicados. Os problemas socioambientais são percebidos em diversos aspectos no cotidiano destas comunidades, e esta pesquisa recorre à Educação Ambiental para compreender as mudanças ambientais e suas relações com as práticas de produção alimentar. É uma pesquisa que teve o aporte metodológico do mapa social, reconhecendo que existem grupos que foram preteridos no tocante ao processo histórico de expansão do uso e ocupação do território mato-grossense. Neste sentindo, busquei, por meio das narrativas dos sujeitos pesquisados, desvelar os processos de expropriação dos grupos sociais e de seus territórios. Usei várias rotas no caminhar investigativo, como observação nos 7 trabalhos de campo, discussão político-pedagógica nos 2 seminários de mapeamento dos grupos sociais e de seus conflitos socioambientais, além das interpretações de 10 entrevistas semiestruturadas com os/as camponeses/as das comunidades Zé Alves e Laranjal. Dentre os resultados, observei que a maioria dos conflitos narrados tem ligação com o uso e a ocupação do espaço, materializados pela disputa por grupos diferentes em aspectos ligados à natureza, mais especificamente aos sistemas ecológicos. Ou seja, ocorre a disputa pelo uso e controle dos componentes bióticos (fauna e flora) e abióticos (rocha, solo, água e clima) do ecossistema local. As principais atividades apontadas como geradoras de conflitos socioambientais são: desmatamento, uso abusivo de agrotóxicos, disputa por terra, disputa por água, garimpo e queimadas. Interpreto de que a Educação Ambiental e a Educação Popular ganham contornos pedagógicos relevantes, pois se põem a questionar a política do modelo de desenvolvimento atual que tem criado um cenário de desigualdade por todo o globo. Assim, acredito no processo educativo que consiga evidenciar a maneira predatória de apropriação da natureza causando um desastroso quadro de injustiças socioambientais que carecem de lutas, mudanças de hábitos alimentares e processos formativos que ofereçam mais dignidade e o esperançar de um outro mundo possível.