Título
No vai e vem da maré: ressignificando a importância do conhecimento local no ensino de ciências
Há tempos discute-se na área educacional sobre os problemas de ensino e
aprendizagem que brotam do enorme afastamento da escola em relação às realidades
e culturas locais. No campo do ensino de ciências, tal problemática tem feito emergir
posicionamentos e práticas em favor de um maior diálogo entre o conhecimento
científico e o conhecimento local, inclusive de comunidades tradicionais, visto que o
estudante traz consigo uma gama de conhecimentos prévios e significados culturais
arraigados em suas experiências. Diante de tal problematização, nesta dissertação
propomos uma descrição e análise de aprendizagens que emergem da interação de
pessoas com seus ambientes de vida, buscando a partir disso compreender possíveis
ressignificações para o ensino de ciências. Em particular, o trabalho busca
compreender as aprendizagens desenvolvidas em uma comunidade de pescadores
no que se refere aos conhecimentos do ambiente e das estratégias e habilidades
envolvidas na prática da pesca; além de construir possíveis relações entre os
conhecimentos locais desenvolvidos na vida cotidiana com os conhecimentos
escolares geralmente presentes no ensino formal de ciências. O local da pesquisa foi
a comunidade da Ilha de Deus, localizada no Parque dos Manguezais, na cidade do
Recife (Pernambuco/Brasil). A etnografia foi o principal caminho metodológico de
constituição, análise e compreensão dessas relações, apoiada em procedimentos de
observação participante, registros em diário de campo e entrevistas. As análises são
devedoras da antropologia ecológica de Ingold, inspirada pela fenomenologia de
Merleau-Ponty. O trabalho de campo foi realizado durante 18 meses e implicou visitas
regulares semanais. Os resultados apresentam um quadro bastante rico de saberes
associados ao cotidiano da pesca e ao ambiente estuarino, os quais são apresentados
em dois grupos, o primeiro referente aos modos de participar da atividade, e o
segundo acerca dos saberes e habilidades necessários à pesca. Desses resultados
destacam-se sínteses referentes às relações de gênero orientadas pela presença da
mulher pescadora; a infância imersa em práticas de pesca e beneficiamento do
pescado; a desvalorização profissional que leva o pescador a buscar oportunidades
“fora” da Ilha, vivendo fluxos de saídas e retornos à pesca. Além disso, as
aprendizagens conectam conhecimentos físicos, geográficos, ecológicos e
matemáticos: a lua é o principal astro que influencia a pesca; a maré guarda caminhos
e lugares que favorecem a atividade de captura de pescados; é preciso conhecer e
diferenciar as características e comportamentos dos animais que se pesca; e os
conhecimentos lógico-matemáticos são construídos principalmente durante as tarefas
de comercialização do pescado. A partir desses resultados, somos motivadas a refletir
sobre a importância dos saberes locais nas discussões atuais do ensino de ciências
na escola. Argumentamos que quanto maior a compreensão dos saberes locais por
parte dos profissionais da educação, aumentam as oportunidades de diálogo com as
comunidades do entorno e de construção contextualizada dos conhecimentos. Por
fim, a partir das análises, esperamos contribuir com práticas de ressignificação do
ensino de ciências e com pesquisas da área que estejam na interface com a
antropologia.