Título

No vai e vem da maré: ressignificando a importância do conhecimento local no ensino de ciências

Programa Pós-graduação
Ensino das Ciências
Nome do(a) autor(a)
Mariana Ribeiro Porto Araujo
Nome do(a) orientador(a)
Carmen Roselaine de Oliveira Farias
Grau de Titulação
Mestrado
Ano de defesa
2018
Dependência Administrativa
Federal
Resumo

Há tempos discute-se na área educacional sobre os problemas de ensino e
aprendizagem que brotam do enorme afastamento da escola em relação às realidades
e culturas locais. No campo do ensino de ciências, tal problemática tem feito emergir
posicionamentos e práticas em favor de um maior diálogo entre o conhecimento
científico e o conhecimento local, inclusive de comunidades tradicionais, visto que o
estudante traz consigo uma gama de conhecimentos prévios e significados culturais
arraigados em suas experiências. Diante de tal problematização, nesta dissertação
propomos uma descrição e análise de aprendizagens que emergem da interação de
pessoas com seus ambientes de vida, buscando a partir disso compreender possíveis
ressignificações para o ensino de ciências. Em particular, o trabalho busca
compreender as aprendizagens desenvolvidas em uma comunidade de pescadores
no que se refere aos conhecimentos do ambiente e das estratégias e habilidades
envolvidas na prática da pesca; além de construir possíveis relações entre os
conhecimentos locais desenvolvidos na vida cotidiana com os conhecimentos
escolares geralmente presentes no ensino formal de ciências. O local da pesquisa foi
a comunidade da Ilha de Deus, localizada no Parque dos Manguezais, na cidade do
Recife (Pernambuco/Brasil). A etnografia foi o principal caminho metodológico de
constituição, análise e compreensão dessas relações, apoiada em procedimentos de
observação participante, registros em diário de campo e entrevistas. As análises são
devedoras da antropologia ecológica de Ingold, inspirada pela fenomenologia de
Merleau-Ponty. O trabalho de campo foi realizado durante 18 meses e implicou visitas
regulares semanais. Os resultados apresentam um quadro bastante rico de saberes
associados ao cotidiano da pesca e ao ambiente estuarino, os quais são apresentados
em dois grupos, o primeiro referente aos modos de participar da atividade, e o
segundo acerca dos saberes e habilidades necessários à pesca. Desses resultados
destacam-se sínteses referentes às relações de gênero orientadas pela presença da
mulher pescadora; a infância imersa em práticas de pesca e beneficiamento do
pescado; a desvalorização profissional que leva o pescador a buscar oportunidades
“fora” da Ilha, vivendo fluxos de saídas e retornos à pesca. Além disso, as
aprendizagens conectam conhecimentos físicos, geográficos, ecológicos e
matemáticos: a lua é o principal astro que influencia a pesca; a maré guarda caminhos
e lugares que favorecem a atividade de captura de pescados; é preciso conhecer e
diferenciar as características e comportamentos dos animais que se pesca; e os
conhecimentos lógico-matemáticos são construídos principalmente durante as tarefas
de comercialização do pescado. A partir desses resultados, somos motivadas a refletir
sobre a importância dos saberes locais nas discussões atuais do ensino de ciências
na escola. Argumentamos que quanto maior a compreensão dos saberes locais por
parte dos profissionais da educação, aumentam as oportunidades de diálogo com as
comunidades do entorno e de construção contextualizada dos conhecimentos. Por
fim, a partir das análises, esperamos contribuir com práticas de ressignificação do
ensino de ciências e com pesquisas da área que estejam na interface com a
antropologia.


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