Título
Uma abordagem sistêmica da sustentabilidade em ecovilas: O caso da ecovila Tibá de São Carlos (SP)
As significativas dificuldades existentes na contemporaneidade para alinhar discursos e ações relativos à sustentabilidade se devem, em boa parte, ao fato de que a própria noção de sustentabilidade encontra-se apropriada pelo capitalismo - o que leva, entre outras coisas, a um tratamento compartimentalizado de suas dimensões. Partindo de referenciais teóricos críticos a esse modelo, a presente pesquisa teve como objetivo investigar de que forma as dimensões da sustentabilidade são tratadas nos discursos e práticas das ecovilas. Para tal, foi feito um levantamento bibliográfico da literatura sobre ecovilas e um estudo de caso em uma ecovila brasileira, utilizando as técnicas de observação participante, entrevistas semiestruturadas e análise documental. Observou-se que existe na Ecovila Tibá - e em ecovilas em geral - um conjunto amplo de práticas voltadas para a sustentabilidade que apresentam, simultaneamente, funções ecológicas, sociopolíticas, econômicas e culturais, de forma que as dimensões da sustentabilidade encontram-se estreitamente entrelaçadas, muitas vezes se interdependendo e se superpondo. Pode-se sugerir que as ecovilas vêm adotando uma perspectiva sistêmica de sustentabilidade, isto é, multidimensional e integrada, o que parece se relacionar a uma busca por coerência entre discurso e ação, assim como por uma coerência intrínseca à própria ideia de sustentabilidade. Nesse contexto, suas práticas parecem vir, até certo ponto, subvertendo a lógica capitalista em alguns aspectos, funcionando no sentido de reduzir a alienação humana e de "reparar" as fendas criadas por esse modo de produção nos processos entre sociedade e natureza e também entre seres humanos - por exemplo, a partir da restauração dos ciclos naturais, da ressignificação do trabalho como atividade vital, do resgate de um senso de coletividade (baseado no compartilhamento e na busca por relações de horizontalidade), da reavaliação de necessidades humanas (levando à busca por uma vida mais simples), do desenvolvimento de relações econômicas não exploratórias (incluindo formas alternativas de produção e consumo e modos não fetichistas de relação com o dinheiro) e da minimização do antagonismo entre campo e cidade (com a revalorização do local e do rural). Foi possível notar que, em ecovilas, enquanto a chamada "sustentabilidade ecológica" tende a ser encarada como um horizonte a ser seguido, a chamada sustentabilidade "social" (incluindo-se aí aspectos micropolíticos, econômicos e culturais) envolve dificuldades muito mais significativas, podendo mesmo inviabilizar a continuidade dessas comunidades - em especial devido a conflitos internos e questões financeiras. Assim, a sustentabilidade social evidencia-se como a própria fundação da sustentabilidade ecológica, na medida em que as práticas ecológicas são necessariamente mediadas por complexas relações sociais. Tal perspectiva sistêmica da sustentabilidade vem levando as ecovilas em geral - e a Ecovila Tibá em particular - a procurarem também exercer um papel de transformação social, buscando influenciar a sociedade a partir da demonstração de modos de vida alternativos. Isso, no entanto, envolve importantes limitações socioeconômicas: constituído predominantemente por grupos de classe média, o movimento inevitavelmente reproduz certos padrões elitistas, e as ações diretamente voltadas à inclusão social frequentemente esbarram em limites estruturais do capitalismo. Por outro lado, algumas de suas práticas alternativas acabam atuando indiretamente na promoção de justiça social - por exemplo, a partir do desenvolvimento de redes de economia solidária. Na medida em que constituem projetos que favorecem - e às vezes exigem - mudanças radicais de modo de vida, as ecovilas oferecem importantes insights tanto sobre as potencialidades como sobre as limitações da busca por sustentabilidade dentro do sistema capitalista.