Título
Entre ruínas e jardins: a cidade através dos deslocamentos de uma professora-artista-pesquisadora
Como olhamos para aquilo que nos atravessa? A cidade que acolhe meu olhar move essa busca abrigada nos processos de aprendizagem tecidos nas inter-relações culturais, ambientais e subjetivas da vida cotidiana. Neste percurso autobiográfico investigo como a trajetória cultural e os regimes de visibilidade operam em minhas possibilidades, maneiras e contornos de ver e viver através da cidade. Como pensar a cidade sem considerar os caminhos e arranjos que engendram meu olhar? A bricolagem convida a desterritorializar as extensas ligações entre corpo, imagem, memória e linguagens nos fragmentos e deslocamentos de tempo e espaço de minhas rotinas de trabalho, estudo e pesquisa. Vislumbro no intangível desses percursos a invisibilidade, o vazio e a incompletude que me aproximam do outro, chave de leitura para a questão: podemos apagar o passado de um lugar sem deixar vestígios? O tempo da cidade revela, no chão que a abriga, sintomas de seu passado de floresta convertido em ruína. Uma ruína que não nasce com a morte da floresta, mas dos desdobramentos de sua ausência nos modos como habitamos esse espaço. Nesses mesmos caminhos vivencio jardins, ilhas de resiliência na cidade como ruína da floresta, forma deslocada de habitar, em que se cultivam outros modos de existir. No cotidiano escolar, parto da transversalidade e me pergunto se existe algum dispositivo capaz de revelar outras paisagens num mesmo cenário. Componho práticas pedagógicas e ambientes de aprendizagem como formas de ver, viver e aprender no e com o espaço escolar. Por meio de meus deslocamentos crio uma narrativa visual em formato de livro de artista na qual relaciono as visibilidades e os modos de subjetivação dessa caminhada. Sigo com minhas paisagens e proponho o Jardim dos pés descalços, trilha a ser aberta, onde a florestania é um modo de deslocamento e perspectiva educativa. Na cidade e na escola vivi a investigação dos temas e ideias que cercavam minha natureza e existência na floresta que virou ruína, cuja alma resistia em lugares como os jardins. Essa jornada de aprendizagem, encontros e reencontros sinaliza elementos para uma cultura ambiental, composta de alteridade, patrimônio imaterial e diversidade. Como extensão do organismo que nos concebe, a mãe Terra, meu corpo é parte dessa cidade que habito e que me habita. Onde a floresta é dor, sou ruína; onde a cidade é jardim me faço afeto e busca.