Título
Narrarivas na formação docente em ciências: um olhar a partir de uma disciplina de educação ambiental da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)
O presente trabalho se debruça sobre a inserção da educação ambiental no ensino superior a partir da reflexão sobre o paradigma moderno e sua relação com a problemática ambiental. Esta é compreendida de modo complexo e requer outro modo de educação para o seu enfrentamento. O objetivo geral desta pesquisa foi analisar que relações discursivas são estabelecidas entre o histórico no campo ambiental e na formação ao longo de uma disciplina na graduação. Especificamente, este trabalho visou caracterizar o histórico curricular e o contexto sociopolítico no qual é inserida a disciplina "Educação Ambiental e Cidadania" da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro; identificar como professores de ciências em formação descrevem discursivamente a educação ambiental e a questão ambiental. O caminho metodológico percorrido foi o levantamento e análise de conteúdo de documentos e currículos dos cursos de graduação dessa universidade, observação participante das aulas do primeiro semestre de 2019 e análise dos textos narrativos elaborados pelos estudantes na disciplina "Educação Ambiental e Cidadania". Nesta universidade, a inserção da educação ambiental de forma disciplinar iniciou em 1993 nos cursos de biologia, num contexto de movimentos ambientalistas e após a ECO 92, e sua ampliação nos currículos da graduação foi influenciada pela Política Nacional de Educação Ambiental e Diretrizes Curriculares para a Educação Ambiental. Em 2006 houve uma vinculação do termo "cidadania" à disciplina de educação ambiental, atualmente presente no currículo de diversos cursos de licenciatura e bacharelado. A partir das narrativas analisadas, as metodologias participativas utilizadas nas aulas geraram estranhamento e medo de se expor, mas foram consideradas positivas por eles. A disciplina foi um espaço de participação, importante para o exercício democrático; para o enfrentamento do silenciamento, da desvalorização intelectual, e para a construção de uma cidadania real. A questão ambiental foi identificada como uma questão social e política e não só ecológica; a natureza foi abordada como sujeito a ser preservado e também como recurso necessário para o desenvolvimento. Os estudantes incorporaram a atuação como educadores ambientais à de professores de ciências, que reforça a relação entre ensino de ciências e a educação ambiental, incentivada pelas discussões sobre a ciência, o pensamento moderno e a natureza. Houve a criação de um espaço disciplinar com interlocutores inter e transdisciplinar que embasa a possibilidade de existência de uma postura interdisciplinar mesmo na estrutura disciplinar do ensino formal, e a capacidade da EA de promover uma ecologia de saberes e a fim de formar novos conhecimentos. Diante do contexto autoritário, violento, individualista e plastificado, narrar o vivido e fomentar a diversidade, o pertencimento a natureza, e valorização da subjetividade são importantes para a sobrevivência e enfrentamento da crise ambiental. Em meio à crise e ausências, a educação ambiental é uma possibilidade de emergências.