Título
Latas d'água nas cabeças: percepções sobre a água na comunidade quilombola de Mata Cavalo
Essa pesquisa teve como área de estudos a comunidade quilombola de Mata Cavalo, localizada no município de Nossa Senhora do Livramento, Mato Grosso. Esta comunidade convive historicamente com diversas lutas, dentre elas, a busca pelo título definitivo de posse da terra e o acesso à água. Tivemos o objetivo de compreender a percepção que a comunidade escolar de Mata Cavalo tem sobre a natureza, principalmente a água, assim como os fatores que eles atribuem à falta de água, como também, às dificuldades e aos conflitos existentes em relação a este bem natural. Nossa pesquisa foi realizada na comunidade escolar da Escola Estadual Tereza Conceição Arruda. Nosso aporte metodológico foi a Cartografia do Imaginário (elaborada por Michèle Sato) que nos proporcionou muitas formas de interpretar, valorizando todos os passos dados no caminho, compreendendo que o caminhar é tão importante quanto onde se quer chegar. Realizamos trabalhos de campo com entrevistas semiestruturadas e oficinas de mapeamento participativo. Historicamente, o acesso a água é uma das maiores dificuldades enfrentadas no quilombo, os entrevistados percebem a água como algo essencial à vida e apontam que as ações humanas têm afetado na qualidade e disponibilidade deste bem natural. As temáticas água e educação ambiental são trabalhadas pontualmente na escola da comunidade, fato que pouco contribui com a formação crítica necessária aos quilombolas que poderiam ter a escola como um dos espaços para compreender os problemas socioambientais vivenciados cotidianamente. A solução apontada unanimemente pelos quilombolas para a falta de água é a construção de poços artesianos em seus quintais, que se justifica pela urgência em ter acesso à água e ao acesso limitado aos córregos. A maioria dos poços está localizada nas propriedades dos fazendeiros, em áreas ainda não regularizadas e indenizadas. Por se tratar de algo essencial à vida, é necessário que a educação ambiental enfatize este problema enfrentado pelos quilombolas, pois isso os fragiliza e, juntamente com o descaso do poder público, os tornam ainda mais vulneráveis ao racismo e as injustiças ambientais.