Título
Uma ontologia do Sagrado Feminino na perspectiva da dimensão ambiental na educação
Frente aos modos de vida insustentáveis da contemporaneidade, este estudo se propôs compreender a matriz ontológica do sagrado feminino na perspectiva da dimensão ambiental na Educação, a fim de reconhecer uma ontologia do cuidado que possa vir a contribuir com esta dimensão da educação, e com o campo de discussões da Educação Ambiental. A pesquisa foi desenvolvida no contexto do Grupo de Pesquisa Educação, Estudos Ambientais e Sociedade do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica (SANTOS, 2000; SALVADOR, 1986, de cunho teórico (FOUCAULT, 1998, 2000, 2001, 2008, 2011; BOFF, 2000, 2004, 2009; 2013; SAUVÉ; 1996, 2005, 2016; GUERRA, 2004, 2001, 2006; SATO, 2005, 2016; PEREIRA, 2016; DITTRICH, 2001, 2010; MATURANA, 1997; CAPRA, 2006), de caráter transdisciplinar (NICOLESCU; MORIN; FREITAS, 1994), compreendida no horizonte de uma abordagem hermenêutica (GADAMER, 2002; 2007). No percurso investigativo, dados arqueológicos da pré-história que comportam iconografia sagrada feminina, arte e ritual foram explorados (LEROI-GOURHAN, 1968; 2007; GIMBUTAS, 2001; MELLAART, 2000), assim como as sistematizações teóricas a respeito dos mesmos (EISLER, 1997; 1998; 2014). Movimentos feministas, e seus desdobramentos, tais como o Ecofeminismo e a Teologia feminista, também foram revisados (RESS, 2012; KOLBENSCHLAG, 2000; WARREM, 2000; RUETHER, 1993, 1996; GEBARA,1999). Aproximações entre a ética do matricentralismo, a Carta da Terra (UNESCO, 2003), a Ecologia Profunda de Arne Naess (DIEGUES, 1998) e Teoria Ecológica Cosmocena (PEREIRA, 2016) foram balizadas. Os dados apontam que na perspectiva de uma ontologia do sagrado feminino na dimensão ambiental da Educação, o Corpo adquire um estatuto sagrado, e se reconhece a si próprio em diálogo com o Mistério, mediado pela história dos acontecimentos. Essa percepção de si é transferida às relações das quais faz parte, assim como da Terra em que habita, considerada esta, o Grande Corpo da Mãe, tal como aparece nas manifestações artísticas e celebratórias ancestrais, revelando com isso uma apropriação vital da Casa da Terra, por parte dos antigos, que pode entender-se como um saber habitar. Um saber que se mostra nas reivindicações da mulher através dos tempos, nos movimentos contraculturais feministas e ambientalistas, cujos apelos e conquistas mostram-se permeados por uma ética de re-apropriação da Vida, em Si, na Terra e na Divindade. Com efeito, a matriz ontológica do sagrado feminino que se revela na ressignificação dos sentidos do cuidado na dimensão ambiental da Educação pode considerar-se como um dispositivo capaz de acalentar o acontecimento no campo educacional, pois nos convoca, como educadores e educadoras, a reinventar a cultura a partir do redimensionamento do Ser, assim como no redimensionamento dos seus territórios de existência, de apropriação de si, de diálogo e de atuação. Assim sendo, mostra-se como uma contribuição fundamental na inversão axiológica apontada por Pereira (2016) como o grande desafio da Educação Ambiental.