Título
"Aprendizagem e espiritualidade em ecovilas: quando "o universo todo ensina"
Esta pesquisa tem como tema a aprendizagem em ecovilas. Ecovilas são definidas como comunidades intencionais que buscam um estilo de vida sustentável, sendo espaços onde, frequentemente, o fenômeno ambiental e o movimento New Age - ecologia e espiritualidade - se encontram. Considerando o cenário contemporâneo - caracterizado por: uma cisão entre o sagrado e o profano decorrente dos processos de secularização; uma crise ambiental que enuncia os limites do consumismo, do desenvolvimento a qualquer custo e da razão instrumental; e uma necessidade de uma nova ética (ou novos fundamentos éticos) - é que contextos como as ecovilas tornam-se relevantes por oferecerem, potencialmente, elementos para repensar a relação humano-mundo, a ética e para incitar outras sensibilidades. Ao valorizarem a aprendizagem como imersão na vida cotidiana, na convivência, essasexperiências se apresentam como campo fértil para refletirmos acerca de práticas educacionais embasadas na tradição moderna, que reafirmam osdualismosmente-corpo,cultura-natureza,mantendo as bases onto-epistemológicas que sustentam a própria crise (espiritual, ambiental e ética). Trata-se de uma pesquisa etnográfica de caráter multi-situado, em que seguimos o fenômeno das ecovilas em dois contextos distintos: uma ecovila o sul do Brasil (Arca Verde) e uma ecovila no norte da Escócia (Findhorn). A ecovila Arca Verde foi escolhida pelo ser reconhecida na região sul do Brasil como um instituto/comunidade referência com relação às questões ambientais, através da Permacultura. Findhorn foi escolhida pelo seu tempo de existência, que inclui as passagens geracionais, e por ser referência como centro de educação ambiental e para a sustentabilidade, junto à Rede Global de Ecovilas (GEN), à ONU e outras iniciativas em nível global. Ao olhar para suas abissais diferenças: a idade, o tamanho, o público, o contexto cultural etc., também encontramos similaridades em suas práticas, narrativas. Ambas identificam-se com a noção de "Ecovilas", compartilhando de uma "mesma definição". O trabalho de campo foi realizado, respectivamente, nos períodos de setembro de 2013 a setembro de 2014 e maio de 2015 a março de 2016. Em consonância com a perspectiva das Epistemologias Ecológicas e dos Novos Materialismos,tomando as perspectivas da aprendizagem situada e comunidades de prática, bem como da educação da atenção, compreendemos a aprendizagem como dimensão de toda a prática social, que acontece no engajamento da pessoa como um todo em processos de coparticipação em empreendimentos comuns. A aprendizagem é compreendida, aqui, como o processo a partir do qual nos tornamos o que somos e que prescinde de situações de ensino. Não se reduz a uma atividade individual, mas se dá no engajamento e coparticipação em atividades a partir das quais sujeitos e mundo coemergem em um processo constante e recursivo de correspondência. Os resultados apontam para modos mais que racionais de aprender em um mundo mais que humano, que envolvem: a interação com a dimensão do sagrado na natureza (seja em sua manifestação humana ou não humana), revelando uma busca de transcendência na imanência, a prática de rituais, com os quais se pode aprender a "sintonizar", consigo e com o outro, e a educação dos sentidos e emoções.