Título
Travessias e silêncio: uma autobiografia fenomenológica do caminhar
Vivemos em um contexto de sociedades que buscam prioritariamente o progresso material, em detrimento dos sentimentos, da justiça social ou da proteção ambiental. Diante de uma crise civilizatória, está no cerne desta encruzilhada da aventura humana uma crise existencial. O cotidiano de muitas metas e compromissos com o crescimento das economias proporciona uma vida acelerada e, muitas vezes, vazia de sentidos existenciais. Na construção de minha tese de Doutorado, lanço um olhar investigativo sobre meus próprios aprendizados nas longas caminhadas realizadas. A pesquisa teve como objetivo interpretar fenomenologicamente as experiências e os aprendizados de caminhantes em longas travessias, em dois territórios: a) Na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, Brasil; e b) no Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. No percurso epistemológico, busquei diálogos com a Fenomenologia (Merleau-Ponty), a Educação Ambiental (Michèle Sato), a Presença (Csikszentmihalyi) e a Psicologia da arte de viver (Susuki). A fenomenologia foi também meu cajado, fortalecendo os passos metodológicos de uma pedagogia que possibilitou uma imersão existencial, gerando o que intitulo de autobiografia fenomenológica. Algumas vezes sozinho, mas a maior parte do tempo acompanhado, caminhei nestas travessias por mais de 1200 quilômetros nas duas rotas, o que ofereceu um horizonte de muitas vivências, sentimentos e reflexões. Para contribuir com esta construção investigativa, mesclo meu olhar com mais trinta e três sujeitos entrevistados que trilharam estes dois trajetos. As longas caminhadas proporcionam um rompimento com a sociedade do progresso, causando a desaceleração gradual do caminhante. Ao longo dos dias e das semanas, o caminhar passa a ensinar a atenção plena, pois é uma exigência da interação do corpo-mente com a paisagem. É neste sentido que as caminhadas podem ser compreendidas como experiências meditativas e educativas. Esta gradual Presença gera uma vivência do Silêncio, que faz com que os caminhantes atentem também à viagem 'interior' e descubram novos sentidos existenciais. As travessias aumentam nosso senso de re-ligação, gerando uma compreensão profunda da interdependência do corpo-mente e do eu-outro-mundo. Tratam-se de aprendizagens sobre as pessoas, suas culturas e suas relações com a natureza, que poderiam ser traduzidas como uma educação ambiental do caminhar.