Título
História oral dos moradores afetados pelo AHE Simplício - Queda Única, Três Rios: contribuições para Educação Ambiental
O presente estudo buscou analisar como a história ambiental se apresenta a partir da oralidade de moradores dos bairros da Grama e Reassentamento 21, na zona rural de Três Rios-RJ, atingidos pelo AHE Simplício - Queda Única, de propriedade da empresa de economia mista Furnas S/A. Centrais Elétricas. O empreendimento, contemplado pelo PAC a um custo de 2,2 bilhões de reais financiado pelo BNDES, está localizado na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul e contou com uma avançada tecnologia que permite produção de hidroeletricidade mesmo em épocas de seca; em seu funcionamento pleno é capaz de gerar 333,7 MW de energia elétrica, o que aumenta em 28% a capacidade energética do estado do Rio de Janeiro. O AHE Simplício causou a remoção de cerca de 140 famílias da área de instalação no trecho fluminense e 60 do lado mineiro, tendo influência direta em quatro municípios: Três Rios e Sapucaia (RJ), Chiador e Além Paraíba (MG). Este estudo de caso baseado na história oral tem como recorte espaço-temporal as comunidades da Grama e do Reassentamento 21 no período de vida dos entrevistados em que as memórias individuais persistem; dessa forma, os objetivos foram analisar os aspectos presentes na oralidade dos participantes que indiquem danos aos modos de vida há muito disseminados em ambas as localidades, elaborar contribuições da história oral à Educação Ambiental e à relação dessas matérias no âmbito do licenciamento ambiental. Na busca pela construção de uma história local, foram apropriados os conceitos de história oral que possibilitam superar a invisibilização a que são submetidos os sujeitos tradicionalmente oprimidos pelas forças hegemônicas do capital; para tanto, utilizou-se as técnicas de entrevistas temáticas abertas, que permitiram capturar, inclusive, aspectos não ditos acerca do empreendimento na vida dessas comunidades devido ao aprofundamento e liberdade na fala permitidos por esse procedimento; e a abordagem snowball, que possibilita desenhar interações sociais locais criando, assim, uma rede. Foi possível identificar que os modos de vida locais foram construídos em ensinamentos hereditários de contato direto com o ambiente e fortes laços sociais e que, em grande parte, o fator parental é crucial para manutenção destes. No Reassentamento 21 identificou-se que as relações sociais e com o meio foram fortemente abaladas pela realocação e enfraquecimento da comunidade com a perda de muitos entes que não vivem mais na região de impacto direto. Em contrapartida, na Grama, apesar de terem sofrido grande decréscimo de sua população e impacto em suas atividades laborais, os moradores encontraram nesta calamidade forças para investir na organização social e enfrentar a situação que se instalou com negligências do Estado, representado pelo IBAMA, pelo poder público local e de Furnas. Diante dos resultados, pôde-se perceber que a invisibilização dessas comunidades foi fortalecida, sendo assim, a história oral pode contribuir muito com a Educação Ambiental (EA), principalmente no que diz respeito à EA praticada no âmbito do licenciamento ambiental, que, com a escuta apurada e respeitosa dos sujeitos atingidos, poderia eleva-los a posição de protagonistas de sua história e construir um programa democrático e emancipatório. Contudo, isto não é o bastante para superar esta condição de reprodução de desigualdades presente no licenciamento, mas é um importante passo a ser dado em busca de um processo mais justo.