Título
Os filhos do Lago do Cuniã: educação escolar em uma reserva extrativista da Amazônia
Iniciativas de políticas educacionais e socioambientais têm se ocupado da importância de a educação escolar respeitar o contexto no qual a escola está inserida, bem como os modos de vida dos estudantes. Neste sentido, foi realizada uma pesquisa qualitativa em Educação, de tipo etnográfico, na Reserva Extrativista (Resex) do Lago do Cuniã, localizada no estado de Rondônia ? Amazônia brasileira. O objetivo principal foi o de aprofundar conhecimentos sobre a cultura tradicional da comunidade residente na Resex do Lago do Cuniã e sobre as formas de apropriação da cultura tradicional pela escola local. Toda a investigação é permeada por análises pautadas nos conceitos de cultura em Geertz, e ideologia em Marx e Engels, os quais associados a reflexões da Educação Popular formam a base do referencial teórico analítico. Foram desenvolvidas pesquisas de campo com duração de 55 dias no total. A primeira ida a campo se configurou como um estudo da escola sob uma perspectiva dialética, tendo sido dirigido a espaços exteriores ao da instituição escolar, e realizada no mês de julho de 2012. Nesta etapa foram feitas observações diretas do cotidiano, com registro em diário de campo; além de realização de sete entrevistas com moradores locais (três adultos e quatro jovens) sobre a temática da educação escolar. Os dados foram sistematizados em Temas Geradores que contribuíram para uma melhor compreensão da realidade, sendo esses: 'trabalho', 'relações de gênero', 'crenças e identidade', 'meio ambiente', 'saúde', e, por fim, 'a escola desde fora'. A escola desde fora é verbalizada como a porta de entrada ao mundo do trabalho assalariado ? o qual se apresenta ideologicamente como única possibilidade para uma 'vida melhor', para que seja possível 'ser alguém na vida'. Os demais temas geradores também trazem elementos para uma discussão educacional. Evidenciam-se as ambiguidades que cercam a compreensão e sentido atribuído ao modelo de Alternância adotado, o qual é concebido como estratégia para lidar com uma histórica 'falta de professores' na comunidade. A segunda ida a campo foi desenvolvida em maio/junho de 2013, e teve como foco a realização de um estudo do cotidiano escolar na Reserva. Todos os sete docentes que estavam na instituição no período foram entrevistados com base em um roteiro semiestruturado; o que, juntamente com observações diretas do cotidiano registradas em diário de campo, contribuiu para a compreensão da realidade escolar. Os dados foram organizados nas categorias 'A escola que temos' e 'A escola que queremos', e discutidos com uma visão integrativa junto a questões de gestão territorial da Resex. Segundo os docentes, a escola questiona o modelo de Alternância vigente, possui suporte e material didático aquém do desejado, e pouco valoriza o trabalho tradicional como possível substrato para a prática pedagógica. Apesar de todas as dificuldades que a educação escolar da Reserva possui, as falas acerca dessa são positivas ? todos os professores afirmaram ter prazer em de trabalhar no local. A cultura é resistente, resiliente, e criativa; e os filhos e filhas do Lago do Cuniã estão banhados nessa cultura. Como afirmou uma professora participante da pesquisa: 'Tem que ser filho da terra, senão não resiste'. Por fim, esperamos que este estudo possa auxiliar no desmascaramento de ideologias e se tornar um instrumento de fortalecimento cultural e educacional dos moradores e educadores da Reserva.