Título
Escola e produção de conhecimento sobre o lugar: a possibilidade de espaços de representação emancipatórios
Nesta pesquisa buscamos refletir sobre a possibilidade de estudantes, envolvidos em trabalhos educativos sobre o lugar/ambiente como principal fonte de investigação, produzirem representações contra-hegemônicas, verbais e não verbais, de temática socioambiental. Temos percebido que o contexto socioambiental atual sofre a influência de um tipo de representação não verbal, associada aos 'discursos comportamentalistas' de Educação Ambiental, que descrevem as relações sociedade e natureza da ordem de uma humanidade genérica e a-histórica. Tais representações fazem uso de imagens da Terra para construir uma simbologia em torno da ideia de uma Terra em risco de morte para a qual é necessário um investimento heroico individual em mudanças de comportamento na esfera da vida cotidiana apontadas como solução para os problemas socioambientais. Estas representações utilizam um mecanismo ideológico que ofusca as questões principais em torno da questão socioambiental, e têm exercido hegemonia sobre os trabalhos educativos no contexto do lugar/ambiente. Assim, nosso trabalho se dividiu em dois momentos: dedicação teórica, que permitiu compreender a produção cultural no contexto das obras pós-modernas e propor uma categoria de análise denominada discursos heroicos para analisar representações não verbais de temática socioambiental; pesquisa qualitativa por meio de observação participante no contexto de um projeto colaborativo, com enfoque no lugar, entre escolas públicas de Campinas e institutos de ensino/pesquisa. Sob a base teórico-metodológica do materialismo histórico-dialético e da proposta da Pedagogia crítica do lugar/ambiente procuramos explicitar as relações causais entre o contexto específico e a totalidade da realidade social. Nossa perspectiva analítica está baseada em uma abordagem sócio-histórica do discurso na linha de Bakhtin e numa construção desta com os estudos da representação no cinema. Percebemos que o principal limite imposto à produção de representações contra-hegemônicas é a atuação dos discursos heroicos enquanto mecanismo da ideologia dominante produzido na estrutura social que procura manter as relações sociais capitalistas, em nosso caso específico, de um tipo de relação sociedade e natureza que compromete os recursos naturais segundo interesses econômicos e políticos. Como principal possibilidade destacamos a criação de espaços educativos de respeito ao educando, enquanto colaborador na produção de conhecimento escolarizado, e a imersão dos mesmos na realidade concreta discutida, seja pelo fato de serem eles sujeitos desta realidade seja pelo movimento de ir ao encontro dos sujeitos imersos na realidade estudada. Assim, novas representações do lugar e das relações sociedade e natureza surgem em forma de crítica às relações sociais do capitalismo tardio que se materializam no lugar, mas não são originárias do mesmo, sendo produzidas em contextos societários mais amplos, para além do lugar.