Título

O cotidiano das interações humano-lixo no assentamento Boa Esperança-lagoa da Manga em Aracatiaçu, Sobral-Ceará

Programa Pós-graduação
Educação Brasileira
Nome do(a) autor(a)
Adriana Melo de Farias
Nome do(a) orientador(a)
João Batista de Albuquerque Figueiredo
Grau de Titulação
Mestrado
Ano de defesa
2010
Dependência Administrativa
Federal
Resumo

Nesta dissertação tive como objetivo principal desvelar o cotidiano das interações humano-lixo no assentamento Boa Esperança-Lagoa da Manga, com o intuito de compreender os aspectos históricos, afetivos, sócio-culturais e formativos que estão imbricados nas práticas cotidianas de cuidado que os assentados estabelecem com o espaço público e o lixo. Para isto, optei por uma pesquisa qualitativa, inspirada na etnografia, que, a partir da observação <i>in loco</i>, da escuta do outro, da descrição dos hábitos e costumes e, ao mesmo tempo, da interpretação dos múltiplos aspectos envolvidos nas práticas, de três marcadores do discurso do lugar, com o lixo doméstico, chegou-se a uma visão de que os assentados manifestam um sentimento intrínseco de amorosidade pelo lugar onde vive e pelas pessoas com as quais convivem, revelados através da valorização das lutas e conquistas históricas de seu povo, assim como do sentir-se pertencente e de umbigo enterrado a terra. Além disso, os marcadores consideram apenas a sujeira (fezes e restos de comida) como lixo, diferentemente da conceituação de lixo para o âmbito acadêmico. As fezes e restos de comida são reaproveitados, respectivamente, para adubo da terra e complementação alimentar dos animais domésticos. Esta é a matriz representacional sócio-cultural que organiza e influencia as práticas cotidianas dos assentados quanto ao próprio lixo produzido; inclusive, o lixo industrializado como os sacos, sacolas, papel, garrafas não servíveis no momento, ou são acondicionados na despensa, ou reutilizados nas atividades cotidianas do campo, o que demonstra um gerenciamento do lixo no próprio domicílio, sendo a mulher a gestora do mesmo e responsável pela limpeza dos espaços públicos, através da prática de varrição que é repassada de mães para filhas e se inicia no domicílio, vai ao terreiro e se estende aos espaços públicos, configurando-se como um espaço sócio-cultural-afetivo informal de ensino. No entanto, este espaço de ensino das tradições culturais de cuidado e limpeza ambiental frente ao lixo está sendo ameaçado, pois as mulheres estão se afastando paulatinamente das atividades de varrição, haja vista que o tempo disponível para esta prática está sendo reduzido e substituído pelo trabalho assalariado na cooperativa de castanha, recém instalada no assentamento. Sendo assim, faz-se necessário nesse momento um fazer pedagógico-ambiental que privilegie os saberes e as práticas históricas, sócio-culturais e formativas dos assentados frente ao lixo, pautados na afetividade pelo lugar com o intuito de mitigar os modos de vida subalternizantes que buscam tornar o homem do campo mero reprodutor de práticas colonializantes, típicas do sistema capitalista.


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