Título
O cotidiano das interações humano-lixo no assentamento Boa Esperança-lagoa da Manga em Aracatiaçu, Sobral-Ceará
Nesta dissertação tive como objetivo principal desvelar o cotidiano das interações humano-lixo no assentamento Boa Esperança-Lagoa da Manga, com o intuito de compreender os aspectos históricos, afetivos, sócio-culturais e formativos que estão imbricados nas práticas cotidianas de cuidado que os assentados estabelecem com o espaço público e o lixo. Para isto, optei por uma pesquisa qualitativa, inspirada na etnografia, que, a partir da observação <i>in loco</i>, da escuta do outro, da descrição dos hábitos e costumes e, ao mesmo tempo, da interpretação dos múltiplos aspectos envolvidos nas práticas, de três marcadores do discurso do lugar, com o lixo doméstico, chegou-se a uma visão de que os assentados manifestam um sentimento intrínseco de amorosidade pelo lugar onde vive e pelas pessoas com as quais convivem, revelados através da valorização das lutas e conquistas históricas de seu povo, assim como do sentir-se pertencente e de umbigo enterrado a terra. Além disso, os marcadores consideram apenas a sujeira (fezes e restos de comida) como lixo, diferentemente da conceituação de lixo para o âmbito acadêmico. As fezes e restos de comida são reaproveitados, respectivamente, para adubo da terra e complementação alimentar dos animais domésticos. Esta é a matriz representacional sócio-cultural que organiza e influencia as práticas cotidianas dos assentados quanto ao próprio lixo produzido; inclusive, o lixo industrializado como os sacos, sacolas, papel, garrafas não servíveis no momento, ou são acondicionados na despensa, ou reutilizados nas atividades cotidianas do campo, o que demonstra um gerenciamento do lixo no próprio domicílio, sendo a mulher a gestora do mesmo e responsável pela limpeza dos espaços públicos, através da prática de varrição que é repassada de mães para filhas e se inicia no domicílio, vai ao terreiro e se estende aos espaços públicos, configurando-se como um espaço sócio-cultural-afetivo informal de ensino. No entanto, este espaço de ensino das tradições culturais de cuidado e limpeza ambiental frente ao lixo está sendo ameaçado, pois as mulheres estão se afastando paulatinamente das atividades de varrição, haja vista que o tempo disponível para esta prática está sendo reduzido e substituído pelo trabalho assalariado na cooperativa de castanha, recém instalada no assentamento. Sendo assim, faz-se necessário nesse momento um fazer pedagógico-ambiental que privilegie os saberes e as práticas históricas, sócio-culturais e formativas dos assentados frente ao lixo, pautados na afetividade pelo lugar com o intuito de mitigar os modos de vida subalternizantes que buscam tornar o homem do campo mero reprodutor de práticas colonializantes, típicas do sistema capitalista.