Título
Ecologia, etnoconhecimento e educação: integrando os saberes acadêmico e popular para a conservação do patrimônio natural e cultural de São Tomé das Letras, Minas Gerais
O município de São Tomé das Letras localiza-se na região sul do estado de Minas Gerais, na porção ocidental da serra da Mantiqueira, na bacia do Rio Grande, em área de transição entre a Floresta Atlântica e o Cerrado. Possui 6.655 habitantes e economia fundamentada em três atividades principais: o extrativismo mineral de quartzito (pedra são tomé), que ocupa até 70% da população ativa, a agropecuária e o turismo. Este estudo se divide em quatro capítulos. O primeiro deles avaliou a percepção ambiental das lideranças do município. Sessenta e três pessoas foram entrevistadas individualmente (segmentos social, político, econômico, educacional, ambiental, cultural, religioso, esportivo, associações comunitárias e órgãos públicos diversos) e os resultados indicaram que os entrevistados conhecem os problemas ambientais da cidade, oriundos especialmente da mineração, e suas motivações conservacionistas são antropocêntricas e utilitaristas. O segundo capítulo teve como objetivo caracterizar a percepção ambiental de alunos de uma escola estadual de São Tomé das Letras. Setecentos e treze alunos do Ensino Médio e Fundamental responderam a questionários com questões ambientais gerais, além de específicas do município. Os resultados mostraram que os estudantes conhecem conceitos e problemas ambientais gerais, especialmente por meio da mídia televisiva, mas precisam ser sensibilizados criticamente em relação aos problemas ambientais locais. O terceiro capítulo objetivou determinar a estrutura fitossociológica de três áreas de Cerrado no município. Foram amostrados 60 pontos-quadrantes por área, tomando-se medidas de altura das árvores e circunferência de tronco. Ao todo, foram identificadas 27 famílias, 36 gêneros e 56 espécies. As populações com maior número de indivíduos foram de <i>Eremanthus erythropappus<i/> (candeia), <i>Miconia ferruginata<i/>, <i>Stryphnodendron adstringens<i/> (barbatimão) e <i>Myrsine guianensis<i/> (capororoca). Os resultados deste capítulo poderão auxiliar projetos locais de revegetação, na medida em que caracteriza o componente arbóreo de áreas com formações vegetais bastante ameaçadas por atividades antrópicas. O quarto e último capítulo avaliou o conhecimento popular de 20 moradores sobre as espécies vegetais medicinais nativas da região. Foram citadas 87 espécies, pertencentes a 46 famílias botânicas. As espécies que tiveram os mesmos usos mencionados por oito ou mais informantes foram barbatimão (<i>Stryphnodendron adstringens<i/>), curraleira, pé-de-perdiz (<i>Croton antisyphiliticus<i/>), assa-peixe (<i>Vernonia polyanthes<i/>), douradinha (<i>Rudgea viburnoides/Palicourea rigida<i/>), carobinha (<i>Jacaranda decurrens<i/>), carapiá (<i>Dorstenia brasiliensis<i>) e arnica (<i>Lychnophora pinaster<i/>). Os dados sobre reconhecimento de espécies medicinais nativas da região podem ser aplicados futuramente em projetos de bioprospecção, e posteriormente, no cultivo e comercialização, pelos próprios moradores de São Tomé das Letras, de produtos medicinais oriundos de sua flora, constituindo uma alternativa econômica para o município e diminuindo a pressão de coleta sobre as plantas em seu hábitat natural.