Título
Do invisível ao visível: o mapeamento dos grupos sociais do estado de Mato Grosso Brasil
O Estado de Mato Grosso - Brasil localizado no centro da América do Sul possui uma rica diversidade ecológica distribuídas nos domínios da Amazônia, Cerrado e Pantanal. Na paisagem exuberante, escondem-se identidades que estão à mercê do descaso histórico e da economia hegemônica do agronegócio que avançam sobre os ditos espaços vazios . Nesses ambientes diversos, coexiste um rico mosaico cultural de identidades interatuantes, que muitas vezes, estão invisibilizadas ou pouco conhecidas. Com esta pseudo-invisibilidade, muitos grupos sociais não estão sendo contemplados na elaboração de políticas públicas. Um exemplo disso pode ser percebido nas políticas que visam o ordenamento territorial do Estado, como o projeto de Zoneamento Socioeconômico Ecológico de Mato Grosso que não contemplou os diferentes grupos sociais que compõem a paisagem mato-grossense. Na tentativa de superar tal fragilidade e dar visibilidade a este belo mosaico cultural, iniciamos em 2008, uma ousada proposta de construir o Mapeamento das identidades e territórios do Estado de Mato Grosso , proposto e concretizado pela liderança do Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte (GPEA) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) com a importante contribuição de diversos parceiros. Inscritos neste projeto, assumimos o compromisso de realizar o mapeamento dos grupos sociais do Estado, com objetivo de identificar e registrar as identidades de resistências. Ancorados na tríade habitantes-hábitos-habitats, buscamos compreender as identidades dos grupos sociais mapeados, suas diferentes racionalidades e modos de vida que demarcam as características de seus territórios - numa relação intrínseca entre a cultura e a natureza. Além disso, procuramos compreender como as identidades destes grupos se constroem, se destroem e re-constroem frente às alterações dos habitats. Neste percurso, elaboramos uma metodologia denominada Mapa Social, que contou com as narrativas dos representantes de vários grupos sociais, visando, compreender a essência das identidades que constroem diferentes significados e atuam nos diversos biomas mato-grossenses. Foram realizados dois Seminários de Mapeamento Social, em 2008 e 2010, que somados contou com mais de 500 participantes vindos de 54 municípios; sendo mais de 70 representantes indígenas de 19 etnias, de comunidades quilombolas, povos pantaneiros, acampados, assentados, agricultores familiares, seringueiros, extrativistas, povos ciganos, atingidos por barragem, retireiros do Araguaia, povos morroquianos, entre outros. Como também, em uma abordagem de cunho etnográfico foram realizadas pesquisas de campo. Neste vir-ser de vários grupos e movimentos trazemos a cena a existência de antigos e novos protagonistas sociais, ao total registramos 52 grupos sociais/comunidades/movimentos que somados a 47 etnias indígenas totalizaram um prognóstico de 99 identidades mapeadas. Na busca de espacializá-los foi elaborado o mapa dos grupos sociais, resultado importante desta tese. Neste mapa as identidades construídas nas dimensões da tradição; do local da cultura e habitat; do labor, trabalho e produção; das driving forces e desenvolvimento; e, das escolhas e filosofias de vida foram evidenciadas e circunscritas nos territórios. A expectativa é que com apropriação das informações proporcionadas por esta pesquisa nasçam subsídios para articulamentos, parcerias e alianças para que os grupos sociais sejam fortalecidos na luta pela proteção dos ecossistemas do Estado e possam ser contemplados nas políticas públicas. A educação ambiental vem de mãos dadas nesta ciranda, aliada à valorização da cultura, na ousadia da reconstrução de sociedades sustentáveis, que resignifique valores como justiça ambiental, pertencimento e democracia. Há pontos e linhas frouxas, mas há, também, um território de esperanças que transcende este tempo tirano, resgatando as tessituras dos sonhos coletivos.