Título
A interface entre o desenvolvimento na Amazônia e as comunidades indígenas: uma análise dos diferentes processos vivenciados pelos Suruí
Este estudo teve como objetivo analisar o cenário das comunidades indígenas, sobretudo verificando a interação entre os mecanismos de estabilidade e mudança acionados diante do atual processo de desenvolvimento. A principal base empírica se constitui na comunidade indígena Suruí cujo território se localiza entre os estados de Rondônia e Mato Grosso. Este grupo se destaca no atual cenário pela sua capacidade de articulação com diversos grupos da sociedade, refletida pelos novos projetos de cunho ambiental e pelas parcerias com diversas ONG, inclusive estrangeiras, grandes organizações e universidades. Tendo um passado marcado pela exploração madeireira e invasões dos colonos instalados no entorno da terra indígena Sete de Setembro em decorrência do Programa Integrado de Colonização, a realidade hodierna dos Suruí conjuga trajetórias e temporalidades que se combinam e se descombinam a partir da intensificação relacional com os não índios. A metodologia escolhida foi o estudo de caso, e foram utilizados os seguintes instrumentos de coleta: (a) Observação do curso “Atividades Econômicas em Terras Indígenas” e da realidade das aldeias dos Suruí e (b) entrevistas realizadas com participantes do curso, com os Suruí, com os atores políticos e também acadêmicos envolvidos na questão do desenvolvimento em Rondônia. Os resultados indicam que existe uma polarização entre os atores políticos, o papel da academia e a atuação dos índios no que tange ao processo de desenvolvimento em Rondônia, de modo que os Suruí emergem como sujeitos da ação política. No que se refere às atividades econômicas em terras indígenas, foi possível realizar entrevistas com atores sociais de diferentes etnias quais sejam Tenharim e Jiahui do Amazonas, Yawanauá do Acre, Cinta Larga, Tupari e Suruí de Rondônia, o que propiciou uma espécie de mapeamento da questão indígena na Amazônia, destacando os processos econômicos. Este trabalho também discute as diferentes formas de integração econômica vivenciadas pelo grupo indígena Paiter Suruí de Rondônia. Aponta para o atual processo no qual a monetarização da vida social é envolvente, mas, sobretudo indica que a racionalidade do mercado não é unidirecional. A racionalidade do mercado, além de conviver com atividades tradicionais, como a do artesanato, interage com a lógica indígena, cujo bojo é a feira cultural, local onde se dá a mescla entre a sociabilidade dos Paiter e a reprodução dos mercados no interior das aldeias indígenas. Evidencia na realidade Suruí a preexistência da vivência da reciprocidade por meio da prática da dádiva, anterior ao contato dos indígenas com os não indígenas. Finalmente, este trabalho se filia a uma perspectiva argumentativa que considera a identidade como dinâmica e passível de transformações através de relações, interesses ou contextos. A partir dos dramas sociais vivenciados pelos Suruí, foi identificada a transição entre estrutura e antiestrutura na sua trajetória. A estrutura se relaciona com a organização social pré-estabelecida antes do contato ou no início dele. A antiestrutura foi propiciada pelos conflitos internos em relação à exploração madeireira e suas consequências na vida cotidiana das aldeias, o que não configura necessariamente a ausência de estrutura, mas um modelo alternativo de organização social que emerge nas fendas da sociedade, que se expressam pelos projetos ambientais e a valorização da educação nas comunidades indígenas.