Título
Romaria das águas: ambiente, afeto e representações nas praias do rio Araguaia/GO
Em um vale encravado no cerrado brasileiro nasce o Berohocy – Grande rio, as águas sagradas dos povos autóctones Iny, cuja cosmologia ao rio se atribui. Pelos povos não originais, o Berohocy foi batizado de Araguaia – ou rio das araras, e os Iny apelidados de Karajá. Para os Karajá, o Araguaia se configura com um território simbólico, cujos afetos se constroem com o ambiente onde se imprimem as relações do mundo vivido. E também o é para o estado de Goiás, pois a ele se atribuem a contribuição para a ocupação do território goiano, nas primeiras bandeiras paulistas empreendidas no atual território goiano. É um elemento natural significativo para a formação político-territorial para o estado de Goiás, e é também símbolo identitário e cultural para os goianos. É o núcleo motivador da mobilidade anual comumente chamada de “temporada dos acampamentos no Araguaia”, cujos atores buscam em suas águas o mesmo afeto sagrado e simbólico que fundamentam a territorialidade Karajá. Nas praias fluviais que emergem da dinâmica da seca no rio Araguaia acontece a atividade social da apropriação das praias com a construção espontânea de acampamentos. Estes são estruturados de forma abrigar grupos de pessoas, normalmente membros de uma mesma família ou de um mesmo grupo social, por períodos que podem chegar a quatro meses (entre junho e setembro) e ocorrem desde a década de 1940. A formação das margens extensas, a facilidade de acesso por diversos municípios, as belezas cênicas da paisagem local com elementos da fauna e da flora e as águas piscosas são os atrativos que contribuem para a retomada anual dos grupos aos acampamentos. E este trabalho discorre essa dinâmica de mobilidade social dos acampamentos construídos ao longo das praias que emergem no rio Araguaia/GO, por diversos grupos para a prática do lazer e da pesca, sua dinâmica ambiental e sentidos simbólicos, sobretudo daqueles localizados no entorno do município de Aruanã/GO. Tem como tema a análise da apropriação das praias no rio Araguaia/GO, com vistas à compreensão das representações que os atores (acampantes) estabelecem com o ambiente (do rio) e como essa apropriação pode fornecer subsídios para o planejamento ambiental no ordenamento do uso das praias e nas ações de educação ambiental. Nosso objetivo maior nessa pesquisa é analisar a configuração das representações estabelecidas entre os acampantes e o rio Araguaia, visando entender como estes atores estabelecem seus processos de apropriação ambiental do rio, e como essas relações podem fornecer instrumentos para se pensar o planejamento ambiental da prática cultural do uso das praias do Araguaia. O trabalho é composto de duas partes essenciais. A primeira - aspectos do ambiente estrutural da pesquisa: o rio Araguaia, políticas públicas do turismo e a apropriação do ambiente - apresenta os aspectos da apropriação e das representações, a relação com o ambiente na estruturação dos acampamentos e seus atores. Está estruturada em dois capítulos - O rio Araguaia: caracterização do meio e os aspectos históricos da ocupação do vale do Araguaia à perspectiva do turismo; e comportamento em representação: um diagnóstico ambiental dos acampamentos na temporada das praias no rio Araguaia. A segunda parte trata do ambiente simbólico-afetivo da pesquisa: tradição, memória, topofilia, e discorre sobre as relações simbólicas a que propomos na leitura dos acampamentos, na tentativa de compreender os sentidos e representações do rio para seus atores.