Título
Percepção ambiental e uso de recursos naturais: a população rural de Ipeúna, SP
Estudos que abordam a relação da humanidade com o ambiente no contexto da ecologia humana utilizam referenciais teóricos de diferentes áreas da ciência, com suas abordagens e metodologias específicas. Eles trazem contribuições às perspectivas para a conservação ambiental. Existem três principais aspectos que a ecologia humana considera para investigar tal relação: cognitivos, comportamentais e de conservação ambiental. Dentre os cognitivos, destaca-se, neste trabalho, o estudo da percepção ambiental. Analisou-se como os conhecimentos relativos aos recursos naturais e as percepções da população humana rural de Ipeúna, relativas ao ambiente, estão interferindo na conservação ambiental local. Ipeúna, localiza-se no interior do estado de São Paulo, na sub-bacia hidrográfica do rio Passa Cinco, integrante da bacia do rio Corumbataí, que, por sua vez, integra a do rio Piracicaba. Em decorrência de atividades agroindustriais e extrativistas, Ipeúna apresenta áreas com significativo impacto ambiental. Para esta população, algumas categorias de percepção, relativas ao ambiente parecem ter desaparecido ou perdido o sentido; para alguns termos ocorreu a substituição de seu significado. Observou-se também a associação de categorias específicas ao problema mais relevante da realidade dos agricultores como a falta de água ou a redução das matas. Ao termo “natureza” associa-se ideias de florestas biodiversas, grandes árvores e rios volumosos e ao termo “ambiente” está ligada a atuação de órgãos governamentais responsáveis pela elaboração e aplicação da legislação ambiental. As propriedades rurais são utilizadas principalmente para o plantio da cana-de-açúcar e para a criação de gado por serem consideradas as atividades mais rentáveis. Esta opção, claramente inserida no contexto agroindustrial de produção, tornou a relação desses produtores com o ambiente mais distante e mediada. Com relação aos recursos naturais da região (fragmentos de mata, os rios e os ribeirões), existe uma preocupação recente com relação à sua conservação, principalmente com o objetivo de atender à legislação ambiental vigente e por temor de multas do poder público. As áreas cultivadas com cana-de-açúcar ou usadas para a criação de gado são amplamente relacionadas ao padrão técnico da agroindústria. Qualquer consideração de conservação está submetida às normas vigentes para a produção agroindustrial no caso da cana-de-açúcar. Para a criação de gado bovino, busca-se o mínimo custo com maior retorno, sendo esta considerada uma “poupança” quando não inserida diretamente no contexto agroindustrial. De outro modo, segundo os pequenos produtores rurais, não é possível manter a pequena propriedade, quanto mais dela auferir algum lucro. Esta não é mais uma atividade capaz de prover o sustento familiar e por isso não há interesse dos mais jovens em aprendê-la e praticá-la. Os conhecimentos tradicionais relativos, inclusive ao próprio trabalho rural estão se perdendo. As mudanças socioeconômicas têm alterado profundamente a percepção ambiental dos produtores, alterado sua relação com o meio e submetido a conservação ambiental a um ajuste possível, realizado pelos produtores rurais, entre as solicitações da produção para a agroindústria e as medidas de conservação requeridas pela legislação ambiental. Neste processo, o discurso técnico-científico (letrado) substituiu a vivência direta e a tradição (oralidade) na relação com os recursos naturais e na percepção ambiental.