Título
De náufragos a excluídos: (des)caminhos da preservação ambiental na praia de Naufragados
A comunidade de Naufragados constitui-se basicamente em uma colônia de pescadores, remanescentes desde a primeira ocupação pelos açorianos no século XVI e, ainda, por posseiros ocasionais desde os fins do século XIX. A cultura local, além da pesca artesanal como principal atividade econômica, realizava também a monocultura de subsistência com o cultivo da mandioca. Mais recentemente, passou por uma ocupação orgânica, na qual tem sido realizadas tímidas tentativas de exploração do turismo. Desde 1975, quando a área da Praia foi incorporada ao Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, nenhum plano de manejo foi aprovado para região, de forma que a ocupação desordenada e orgânica, devido ao desconhecimento da complexidade das relações daquele ecossistema, ocasionaram uma significativa degradação ambiental. Nenhuma indenização foi proposta para que a comunidade deixasse o local. A criminalização da comunidade e a demolição das casas e ranchos dos pescadores deram início a um grave conflito ambiental, que se iniciou em 1999. A presente pesquisa qualitativa pretende, através do método etnográfico, investigar como o conflito ambiental afetou as relações da comunidade de Naufragados com o ambiente natural na década que se seguiu ao início da expulsão dos nativos e posseiros (1999-2009) e qual o seu impacto na preservação daquele ecossistema. Assim, o objetivo geral da pesquisa consiste em compreender como o conflito ambiental impactou o processo de reconfiguração dos limites do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro e sua repercussão para a comunidade de Naufragados.Para a efetivação do objetivo geral, definiu-se como objetivos específicos: a) compreender a legalidade e a legitimidade do processo de expulsão de nativos e posseiros da Praia de Naufragados; b) refletir sobre o processo de transformação dos sujeitos e de suas relações com o ambiente após o conflito ambiental ocorrido na Praia de Naufragados; c) identificar, a partir de entrevistas, a participação comunitária na preservação ambiental da Praia de Naufragados e quem são os visitantes que a frequentam e o que pensam acerca da expulsão da comunidade; d) situar a existência de práticas relacionadas à educação ambiental na comunidade de Naufragados. A pesquisa propiciou uma reflexão sobre a comunidade e suas práticas culturais, sua reorganização e enfrentamento do poder público. A partir de pesquisa qualitativa de cunho etnográfico, foi possível refletir sobre a relação entre o turismo, preservação e desenvolvimento desta comunidade pesqueira tradicionalmente ligada a uma unidade de conservação. Constatou-se que a comunidade, que se encontrava "à deriva", sem saber exatamente que modo de habitar poderia ser construído naquele território atentou para a necessidade de utilização de práticas voltadas à educação ambiental, como instrumento indispensável no processo de gestão integrada e participativa dos recursos naturais. Verificou-se, ainda, que o turismo de base comunitária pode ser uma importante possibilidade de desenvolvimento endógeno para a região. Por outro lado, ficou claro o descrédito da comunidade em relação à justiça (poder judiciário e suas instituições). Os resultados obtidos levam à conclusão de que é possível conciliar a permanência e preservação da comunidade com a preservação do meio ambiente, sendo a educação ambiental apontada como ferramenta adequada para a efetivação deste processo.