Título
A contaminação por chumbo em crianças: subsídios para ação educativa em alfabetização científica
A literatura tem indicado que o ensino tem maior significado quando parte-se de temas presentes na realidade do aluno. No entanto, um fato pode fazer parte do cotidiano e não se tornar ponto de partida para o ensino, mesmo sendo importante. Diante disso, esta pesquisa buscou investigar como quatro escolas públicas de uma região contaminada por chumbo trabalhavam essa temática. Nessas escolas encontravam-se matriculadas mais de 300 crianças com histórico de contaminação por este metal, e as demais, em condições de exposição, por morarem em uma área de risco no interior paulista. Considerou-se, portanto, que a temática fazia parte da realidade dessa população. A pesquisa foi desenvolvida em três diferentes etapas: 1a etapa - diagnóstico: entrevistas com 36 professoras para identificar (I) concepções sobre o processo de ensino-aprendizagem, (II) trabalhos realizados com a temática da contaminação por chumbo, pela escola e pelo docente em sala de aula, (III) relações estabelecidas entre a contaminação por chumbo e o desenvolvimento infantil, (IV) possíveis diferenças entre o desempenho escolar de crianças contaminadas por chumbo e não contaminadas e, (v) descrição de práticas educativas possíveis frente a esta questão; 2a etapa – intervenção – programa de capacitação pautado em necessidades apontadas na etapa 1, com 15 participantes; 3o avaliação: reentrevista com 13 participantes de ambas etapas anteriores, mediante o mesmo instrumento inicial, para comparar dados do momento inicial da pesquisa e após a capacitação. Os dados foram analisados segundo análise de conteúdo. Na etapa 1 foi possível identificar que as professoras partiam de diferentes concepções de ensino para a prática docente e apenas 25% delas trabalharam com a questão da contaminação por chumbo, de forma assistemática. Relataram desconhecimento sobre as implicações da contaminação por chumbo e referendaram a necessidade de capacitação. A etapa 2 possibilitou reflexões sobre a prática docente, informações específicas sobre a contaminação e planejamentos mais abrangentes sobre saúde, ambiente e responsabilidade social, pautadas em necessidades específicas de cada escola. A etapa 3 revelou a efetividade do programa de capacitação para professores. De modo geral, verificou-se que temas factuais podem ser ponto de partida para o ensino, desde que o professor esteja capacitado para lidar com estratégias e conteúdos envolvidos. Do contrário, será necessário capacitá-lo. O tema da contaminação por chumbo, apesar da relevância, sem a capacitação docente, correria o risco de não ser abordado pela escola. O apoio dos órgãos governamentais foi e será importante para promover condições para formação permanente de professores, partindo de suas necessidades.