Título
Projeto de assentamento Chico Mendes II: uma parceria possível entre reforma agrária e conservação da mata atlântica?
Na década de 80, a política de reforma agrária foi iniciada no Brasil com o objetivo de distribuir melhor as terras, diminuindo o número de grandes latifúndios. À medida que as terras foram ocupadas para reforma agrária, cresceu o conflito de interesses entre os movimentos sociais e os movimentos ambientalistas. Diversas áreas que eram de interesse para a conservação da mata atlântica, um dos “hotspots” brasileiros, foram desapropriadas para a criação de assentamentos da reforma agrária. O conflito entre conservação e a questão agrária é ainda intenso na maior parte do país, especialmente na Amazônia, onde são criados assentamentos em locais onde a mata estava preservada, causando grandes impactos. No entanto, em algumas localidades do país estratégias vêm sendo desenvolvidas para a conciliação dos interesses dos assentados e dos ambientalistas. Em Minas Gerais, foi criado, em 2002, o assentamento “Chico Mendes II” no entorno no Parque Estadual do Rio Doce (Perd), o mais importante fragmento de mata atlântica do estado. O parque é circundado por plantações de eucaliptos, grandes siderúrgicas e áreas urbanizadas, e no assentamento está o maior fragmento de mata do entorno dele (340 ha.). Devido à importância ecológica da mata do assentamento, o presente estudo objetivou incentivar a conservação da biodiversidade e a melhoria da qualidade de vida da população residente no assentamento, através de um programa de educação ambiental. Foram realizados diagnósticos participativos com o objetivo de levantar os problemas da área. A partir dos resultados, durante um ano, foram realizadas várias atividades com a participação dos assentados como: seis oficinas (sanidade de cultivo e de solos, conservação de solos, conservação da água, fauna e flora da mata atlântica, adubação verde e lixo), uma saída de campo para o Perd, uma feira para troca de sementes e uma palestra proferida pelo administrador do parque. O processo de educação ambiental é lento e geralmente os resultados são constatados somente a longo prazo. No presente estudo, os assentados demonstraram ter ampliado os seus conhecimentos sobre o funcionamento dos ecossistemas, no entanto, na prática, poucas mudanças foram observadas. Provavelmente, porque mudanças de hábitos, muitos deles passados por várias gerações, levam algum tempo. Com a continuidade da pesquisa espera-se que os assentados incorporem novas práticas agrícolas em seu cotidiano de forma que possam contribuir para a conservação do meio ambiente.