Título
Imaginário social de semiárido e o processo de construção de saberes ambientais: o caso do município de Coronel José Dias - Piauí
Uma parte do território brasileiro é de clima semiárido, marcado pela irregularidade no regime de chuvas. Característica esta tomada como referencial para a instituição de um imaginário social estruturante de uma identidade de vítimas das condições climáticas e de uma territorialização que delimitou um Brasil das secas, a que o Estado denominou polígono das secas, incluindo grande parte do nordeste e o norte de Minas Gerais. Nesse espaço é esboçada uma cultura que se move em uma perspectiva de combater as secas e que perdura até final dos anos 90. A partir daí, segmentos populares, movimentos sociais e organizações não governamentais instituem outra toponímia para o referido território, com base nas condições climáticas, denominando-o semiárido e anunciando mudanças no padrão de relação entre cultura e natureza a que chamam de convivência com o semiárido. O presente trabalho é o resultado da investigação sobre o imaginário social a partir de expressão oral e gráfica das populações camponesas do semiárido piauiense, no município de Coronel José Dias, no entorno do Parque Nacional da Serra da Capivara, partindo do pressuposto de que a relação humanidade e natureza é instituída não só pelas práticas, mas também pelo imaginário social, sendo orientado por representações sociais, por sua vez produzidas nessa relação. O problema de pesquisa deu origem às seguintes questões: que imaginário social instituiu uma relação de desequilíbrio ambiental no semiárido piauiense? Quais as representações sociais apontam para o restabelecimento de uma relação sustentável entre natureza/cultura no referido ecossistema? Em decorrência, o objetivo geral da investigação visava analisar o imaginário social que norteia as relações natureza/cultura, nas suas dimensões éticas, simbólicas e práticas. E para atingir esse objetivo geral, foram traçados os seguintes objetivos específicos: conhecer o modo de vida camponesa através de seus saberes e práticas culturais; identificar e classificar os saberes de relação predatória e os que apontam para um novo equilíbrio na relação cultura e natureza e, por fim, captar os elementos culturais locais relacionados com a possibilidade de estabelecimento de um novo equilíbrio. O pressuposto básico da metodologia foi a concepção de que o fenômeno social é passível de objetivação, mesmo não sendo guiada por perspectivas objetivistas. Dessa forma, o estudo de caso foi conduzido por metodologias qualitativas, visando analisar referências empíricas do imaginário social na perspectiva de descrição densa. Para tanto, foram utilizadas técnicas da entrevista semiestruturada, observação participante, registro em diário de campo e produção de imagens gráficas, acompanhadas de relatos. Os resultados apontam para um imaginário social em processo de ressignificação de suas representações sociais no contexto de uma crise eco social. Nesse processo, há uma relação intercultural com duas intencionalidades: a construção ou reinvenção tanto de uma identidade espacial, o semiárido, quanto de sujeito social, em um diálogo que, ao mesmo tempo, nega e reafirma as identidades de nordestino e de sertanejo. A outra intencionalidade é a de agregação à identidade local, seja espacial, seja social, do Parque Nacional da Serra da Capivara, área de preservação arqueológica e ambiental. Os resultados desvelam, assim, um processo de instituição imaginária que poderá ser potencializada no processo de construção de uma proposta de Educação Ambiental intercultural para o semiárido.