Título
Educação em meio ambiente e saúde: um estudo sobre concepções e práticas no primeiro segmento do ensino fundamental
Esta pesquisa trata do ensino dos temas transversais meio ambiente e saúde, voltado às etapas iniciais do ensino fundamental. Consiste em um estudo de caso realizado em uma instituição pública federal de ensino do estado do Rio de Janeiro, o Colégio Pedro II. Ao longo de vinte e dois anos de existência do primeiro segmento na instituição, foram elaborados diferentes documentos curriculares, nos quais buscamos investigar como a escola vem tratando dos temas assinalados. Aliamos o estudo documental à observação das práticas pedagógicas realizadas atualmente na instituição e buscamos, através de entrevistas com professoras, perceber as concepções de meio ambiente e saúde que orientam as suas práticas. A análise da proposta curricular nos permitiu identificar mudanças na concepção de meio ambiente, passando de uma visão utilitarista e antropocêntrica para uma concepção globalizante após a elaboração do Projeto Político-Pedagógico (PPP) da instituição, em 2001. Até este mesmo ano, predominou a concepção higienista de saúde sendo que, a partir do PPP, aparece o conceito da Organização Mundial de Saúde (OMS), que define a saúde como “bem estar físico, mental e social”. Em ambos os casos, notamos a ausência de uma perspectiva mais crítica que englobe, de forma clara, os aspectos políticos, econômicos e histórico-culturais. Atualmente, predomina entre os professores a concepção de saúde como qualidade de vida, embora esteja ainda muito arraigada a concepção anterior da OMS. Sobre meio ambiente, os depoimentos dos atuais docentes remetem a uma visão do ambiente como espaço físico ou de relações, além de sua associação no contexto social, político e econômico. Na investigação das práticas cotidianas, observamos que as concepções norteadoras são, prioritariamente, a dos professores, mais do que aquelas oficialmente assumidas pelo PPP institucional. Dentre as dificuldades apontadas pelos docentes para efetivação de um trabalho com meio ambiente e saúde, assinalamos a falta de estudo e diálogo entre os pares, dificuldades na organização escolar e falta de integração entre as disciplinas do currículo. Para proceder à análise dos dados, utilizamos como principal referencial teórico a sociologia de Bourdieu e os conceitos de campo e hábitos, enfatizando também a ligação entre sua teoria sobre a não neutralidade da escola e a legitimação da cultura dominante, tanto em relação aos conteúdos curriculares propostos nos documentos oficiais como nas práticas cotidianas. Entretanto, vimos que muitas vezes essas práticas tornam-se transgressoras e emancipatórias, o que revela a existência de um espaço de disputa no campo escolar, onde é possível romper com concepções arraigadas e reconstruí-las em novas bases.