Título
Conhecimento popular sobre plantas do cerrado como subsídio para propostas de Educação Ambiental
Trabalhos em etnobotânica e Educação Ambiental têm em comum a interdisciplinaridade e podem ser complementares. Enquanto a etnobotânica se preocupa, por exemplo, com a visão e o conhecimento sobre as plantas nativas do cerrado, trabalhando com base na botânica e na antropologia, a Educação Ambiental se ocupa em disponibilizar os valores e os conhecimentos necessários para a sustentabilidade de uma população. A pesquisa teve como objetivo avaliar, por meio de algumas metodologias etnobotânicas, o conhecimento das espécies vegetais nativas e seus usos na área urbana de Martinésia (Uberlândia - MG), e fomentar, através da pesquisa ação participante projeto futuros de Educação Ambiental (EA) em uma visão mais sóciointeracionista para a conservação do referido ambiente. Para alcançar este propósito foram utilizadas entrevistas com a comunidade para identificar parceiros que pudessem divulgar seus conhecimentos sobre plantas do cerrado (informantes chaves) e parceiros que tivessem a capacidade de intermediar o conhecimento popular e o científico e organizar práticas de Educação Ambiental (multiplicadores). Foram aplicadas metodologias etnobotânicas (entrevistas, "<i>“walk-in-the-woods</i>"” e pranchas) com os informantes chaves para averiguar o seu conhecimento popular, enquanto que os multiplicadores passaram por entrevistas e auxiliaram na organização da oficina de Educação Ambiental. Foram identificadas 49 espécies de plantas úteis pelo método etnobotânico <i>“walk in the woods</i>”, sendo que os usos mais frequentes foram o medicinal (45%) e o alimentar (28%). Dentro do uso medicinal das plantas nativas, 57% dos procedimentos destacados foram dos chás, a folha foi a parte da planta mais utilizada (33%) e as indicações das doenças mais tratadas por essas plantas foram para os sistemas respiratório (20%), geniturinário (18%), digestório (17%) e na pele (14%). A utilização das pranchas nas entrevistas não foi suficiente para que os informantes chaves falassem sobre seus conhecimentos, sua aplicação nas oficinas apresentou um resultado eficiente. As entrevistas (com a comunidade, com os informantes chaves e com os multiplicadores) destacaram o conhecimento físico da comunidade (aspectos sociais, econômicos, biodiversidade e outros) e o simbólico (valores). A Educação Ambiental deve se basear em vários fatores desta comunidade, como: os socioeconômicos, para melhor seleção do público alvo; os educacionais, para uma abordagem mais próxima à linguagem da comunidade e para que se contraste a educação formal e a informal; e ainda os fatores culturais, que permeiam o ambiente e o conhecimento dessa população. Devem, também, respeitar a cultura do local, que podem ter elementos racionais ou não, por dois motivos: para que as pessoas não se sintam feridas em suas ideologias e para que possa haver continuidade nas discussões sobre o ambiente como um todo (dos aspectos naturais aos humanos) para a sustentabilidade socioambiental. Na Educação Ambiental, como pesquisa ação participante, é indispensável trabalhar com agentes que possuam potências de ação, ou seja, que possam dar continuidade aos debates sobre as questões sócio-ambientais. Assim, é importante que projetos de Educação Ambiental, que visem à valorização do conhecimento popular, tenham a utilização de informantes chaves como geradores, detentores e transmissores desse conhecimento. Assim como é importante, dentro desses projetos, que servem como organizadores e mediadores entre o conhecimento científico e o popular, a fim de desfazer a estranheza entre a comunidade e o pesquisador e ainda conectar essas pessoas em prol de um bem comum.