Título
O conceito filosófico de ambiente e a reconstrução da subjetividade ética: uma contribuição à Educação Ambiental
A Educação Ambiental está presente na discussão contemporânea mais legítima que procura assegurar-nos possibilidades mínimas para a continuidade da vida no planeta. A atitude existencial humana que se caracteriza por esta avalanche de destruição e morte, responsável pelo flagelo de milhares de pessoas, hoje é a mais concreta ameaça à tão cara diversidade da vida nas inúmeras espécies extintas a cada segundo. Vemo-nos numa intrincada rede de relações entre os sujeitos que fazem a história e aqueles que a sofrem. Os ataques desferidos ao paradigma científico e tecnológico, que empresta legitimidade e procura dar o tom da impessoalidade como objetividade neutra aos abusos cometidos em nome do conhecimento, beiram a unanimidade. Igualmente pode-se referir ao modelo de crescimento econômico sustentado por uma pretensa inesgotalidade dos recursos explorados, num impulso infinito de produzir quinquilharias e desejos de consumo sem fim. A multidão vê-se atônita e impotente para construir mudanças, aspirando continuamente a indiferenciação e a massificação da não-responsabilidade. A crise deste final de século e milênio, que contempla uma certa virada epistemológica, está a exigir do intelectual que a ultrapasse enquanto crise de uma forma determinada de produzir conhecimento ou esgotamento dos parâmetros que norteiam a produção e o consumo de bens e fazem a economia. O que está a desagregar-se, efetivamente, é o mais profundo e radical sentido do humano que os mais de dois mil anos de civilização greco-ocidental cultivou e hoje sentencia como refúgio único para todos os seres humanos que devem sucumbir à ocidentalização do globo. E a tarefa que nos cabe hoje passa, em definitivo, pela crítica prenhe de novidade e renovação que pode nascer de um rompimento definitivo e corajoso com as estruturas mais remotas e originais do sujeito que degrada e assassina. Este trabalho procura identificar os traços mais significativos da subjetividade ocidental que é sujeito da totalização do outro ser humano e da natureza na produção do conhecimento, na organização social, enfim, na incursão do eu ocidental pelo mundo e seu inevitável retorno à solidão de uma subjetividade pretensamente autônoma e livre, que mergulha em uma totalidade autoritária de sentidos como realidade última e única para o eu. A sugestão deste locus de onde a crise brota e por onde ela se espraia, como um modelo de totalidade hipertrofiado que encontra-se hoje em violento esgotamento de seus mecanismos de sustentação, busca alcançar-nos possibilidades de emergir da crise como crítica eficaz e anúncio da novidade. O debater-se com os limites da própria vida proporciona ao sujeito contemporâneo esta reconsideração de significados, e especialmente de atitudes, com a alteridade do outro humano e da natureza. A ruptura da trajetória milenar do ser ocidental, forte e dominador que nasce da aniquilação de toda e qualquer diferença, quando é exatamente o resgate, a reconsideração e a sobrevivência, anterior e acima de tudo, da multiplicidade, das diferenças, do que é verdadeiramente outro do eu, e que não integra sua totalidade resistindo e por isso tornando-se vítima, esta fertilidade de uma época sem ordenações e pré-determinações que proporciona também à Educação Ambiental o espaço para a discussão de novas pessoas, novos sujeitos. O embate que brota diariamente na realidade esfacelada do eu obriga-o a reconsiderar-se enquanto atitude subjetiva e intersubjetiva, brinda-lhe a oportunidade de fazer-se ético numa ética verdadeira. Á Educação Ambiental está posta a tarefa do melhor considerar o momento presente para a utopia de um futuro. Face a isto é que nosso trabalho propõe a atenção concentrada, urgente e imprescindível a esta temática recente, no que diz respeito à própria fundamentação teórica da produção da Educação Ambiental. De nossa parte, elegemos o conceito filosófico de ambiente como categoria fundante e fundamental na reconsideração do sujeito livre e autônomo do ocidente e à sua abertura como sujeito secundário à alteratividade com o outro a quem acolhe e responde em responsabilidade. O ambiente da ética e da responsabilidade pela alteridade - pela multiplicidade que é essência da realidade de onde a vida brota - sugere-se como caminho possível à superação da degradação que mata pessoas e natureza exatamente na medida em que re-funda a subjetividade como ética e o humano como responsável inescusável pelo outro.