Título
O diálogo com as culturas de infância para o presente: um princípio da Educação Ambiental na escola
O presente trabalho buscou compreender as manifestações das culturas de infância na escola, investigando, durante o período de 2002 a 2004, uma escola localizada no município do Rio Grande. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso etnográfico, sendo realizadas observações participantes, bem como análise de documentos avaliativos das famílias. Utilizou-se a análise textual qualitativa para a interpretação das informações produzidas. Foi possível perceber várias infâncias instituídas no ambiente escolar, sendo destacadas no relatório de pesquisa: a infância investigativa, à qual é proporcionado um ambiente de pesquisa, vivenciando em seu cotidiano o questionamento, a imaginação, a criatividade, o diálogo, a construção de argumentos, a leitura e a escrita; a infância disciplinada, em que o foco está na construção de uma identidade das crianças num padrão ideal construído pelo adulto; e a infância capitalista, sendo vista pela sociedade como um vir-a-ser, representando um capital humano em potencial a ser absorvido pelo sistema produtivo, fazer parte dele, produzir e consumir. Para a convivência com essa diversidade encontrei normas sendo negociadas, cumpridas e exigidas por todos. Entretanto, ressalto a normatização da infância como forma de controlar as ações e vontades das crianças. A partir das infâncias encontradas, busquei compreender como as crianças se constituem na escola. Percebi que essa constituição se dá através da apropriação da cultura dos adultos, sendo as crianças influenciadas pela forma como eles pensam e agem com a infância. Ao mesmo tempo, observei que as crianças se constituem por meio de suas culturas de resistência, mostrando que não estão totalmente subordinadas às culturas dos adultos, recriando suas próprias culturas. Outra forma de constituição se dá por meio das diversas linguagens que as crianças utilizam para expressar sua compreensão de mundo, sendo propiciadas na escola a música, o teatro, a dança, as artes plásticas, mas há uma valorização da escrita em detrimento dessas outras linguagens. Também percebi que as crianças estão se constituindo através da brincadeira, sendo esta um traço fundamental das culturas infantis. Percebi que a brincadeira estava presente em três lugares, sendo o primeiro deles instituído pela escola, o pátio e o recreio; o segundo instituído pela professora, estando presente em seu planejamento; e o terceiro como um entre-lugar, o lugar criado pelas crianças, que independe do planejamento e algumas vezes burla esse planejamento. A pesquisa me permitiu construir o argumento de que é preciso haver na escola o diálogo entre as diferentes culturas, tanto as das crianças quanto as dos adultos, valorizando a criança que está se constituindo para viver e ser o melhor no presente. O respeito à diversidade de infâncias e de culturas que se instituem na escola é um princípio que defendo e para o qual encontro fundamento na Educação Ambiental. Através da pesquisa fui me constituindo educadora ambiental, o que permitiu perceber aspectos que antes, enquanto pedagoga, não problematizaria. Assim, pensar a educação ambiental na escola foi uma possibilidade de superação de alguns limites que encontrei. Aponto como esses limites a visão de natureza presente na escola, à fragmentação e visão antropocêntrica e cientificista com que algumas vezes são tratados os conteúdos, bem como a infância capitalista, reflexo da sociedade produtiva e consumista que vivemos. Ao mesmo tempo, entendo que esses limites se devem a pouca presença do discurso da Educação Ambiental na formação inicial de professores. Assim, assumo o compromisso, enquanto educadora ambiental, de contribuir como profissional da educação para tornar mais complexo o conhecimento de Educação Ambiental na escola, buscando isso por meio da problematização dos limites que foram percebidos na pesquisa.