Título
O uso e a percepção ambiental de áreas úmidas por uma população ribeirinha na região da bacia hidrográfica do Rio Taquari-Antas, Rio Grande do Sul
As áreas úmidas são importantes ecossistemas para a proteção da biodiversidade, apresentando grande riqueza de espécies e altos níveis de endemismo. Esses ambientes são fontes de recursos naturais para as populações humanas e estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo. Os impactos nas áreas úmidas incluem tanto a alteração do habitat como a destruição do mesmo. A humanidade depende do uso sustentado das áreas úmidas. A etnobiologia estuda o conhecimento que as populações humanas possuem acerca dos recursos naturais, taxonomias, classificações e dos ecossistemas dos quais dependem para as suas atividades comerciais ou de subsistência. A admissão de populações nativas como parte do ecossistema é fundamental para conservação da biodiversidade. O ecossistema é afetado direta e indiretamente pelas relações que as populações humanas mantêm com os recursos hídricos. Diante disso e reconhecendo a importância de conservar as áreas úmidas e de admitir (reconhecer) a intensa interação e conhecimento que populações tradicionais possuem acerca dos recursos ambientais, o presente estudo objetiva avaliar a interação e conhecimento de uma população de ribeirinhos sobre as áreas úmidas locais, por meio da análise de suas estratégias adaptativas, de seu conhecimento específico sobre a dinâmica dos recursos ambientais e de seu entendimento sobre a conservação do meio ambiente. Sendo assim, dois trabalhos foram desenvolvidos na região do vale do Taquari. O primeiro se baseou em uma amostragem sistemática, quando os ribeirinhos do município de Estrela foram acompanhados ao longo de um ano com a coleta das informações através de métodos qualitativos, observação direta e entrevistas semiestruturadas (com auxílio de um guia de tópicos). O segundo se baseou em uma amostragem pontual, na qual os ribeirinhos dos municípios de Estrela, Lajeado, Bom Retiro do Sul e Cruzeiro do Sul foram entrevistados apenas uma vez com um questionário contendo dez afirmações de caráter conservacionista. Essas informações foram analisadas juntamente com o sexo, idade e grau de escolaridade dos entrevistados, através da distribuição qui-quadrado, a fim de verificar se esses fatores influenciam a visão dos pescadores quanto à percepção ambiental. O primeiro estudo mostrou que as informações que os ribeirinhos de Estrela trazem acerca do ambiente em que vivem e seus recursos são ricas e importantes para sua sobrevivência. Além disso, muitos dos conhecimentos relatados estão de acordo com o conhecimento observado pela Ecologia e Limnologia. Os pescadores possuem conhecimento sobre a legislação que protege o uso dos banhados, bem como a consciência da importância e da manutenção desses sistemas; sabem sobre a morfometria do rio, fases de inundação e seca e sua influência no recurso pesqueiro; extraem peixes de maior valor econômico, mas possuem estratégias para utilizar os de menor valor; possuem conhecimento do uso do habitat pelos peixes e utilizam essas informações para elaborar suas estratégias de pesca. O segundo estudo indicou que os ribeirinhos possuem uma percepção positiva do meio ambiente em que vivem. Algumas divergências foram detectadas, mas, apesar disso, com base nos resultados obtidos com o qui-quadrado, verificou-se que o grau conservacionista de cada pescador não está correlacionado com a idade, o gênero estudado e o grau de escolaridade. Como conclusão, os estudos mostraram que a tradição dos pescadores, suas vivências e história demonstram como estão conectados com a dinâmica do ambiente em que vivem, como precisam, assim como todos os animais, estabelecer estratégias para sobreviverem às mais variadas adversidades e o quanto a manutenção do ambiente pode garantir a manutenção da sua própria cultura. A percepção do ambiente é de suma importância, já que traduz a relação que o humano possui com a natureza. Essa relação pode ser sustentável ou não. Desta forma, estudar como as populações humanas percebem e se relacionam com o meio é também um dos passos na elaboração de planos de manejo e um termômetro na avaliação da educação ambiental que esses vêm recebendo.