Título
Temáticas ambiental e do trabalho nos livros didáticos de História de 5ª a 8ª séries do ensino fundamental: rede municipal do Rio de Janeiro
Esta pesquisa objetiva analisar como as temáticas ambiental e do trabalho, e suas articulações, estão sendo tratadas nos livros didáticos de História do segundo segmento do ensino fundamental no município do Rio de Janeiro. Este estudo, orientado pelo paradigma da teoria crítica (ALVES-MAZZOTTI, 2001), adota, como parâmetros de análise, conceitos de autores que consideram a categoria trabalho como condição necessária e geral que estabelece a relação entre sociedade e natureza e que entendem o trabalho, no sentido da práxis, como atividade material humana transformadora do mundo e do próprio homem (MARX, 1988; FOLADORI, 2001; DELUIZ; NOVICKI, 2004); que defendem um desenvolvimento sustentável pautado pela justiça social (ACSELRAD, 2001); que investigam a relação homem-meio ambiente numa perspectiva dialética, incorporando as dimensões social, cultural, econômica da questão ambiental (NOVICKI; GONZALEZ, 2003); que identificam no nosso modo de produzir e consumir a raiz, simultaneamente, da degradação ambiental e da desigualdade/exclusão social (NOVICKI; MACCARIELLO, 2002); e que entendem a educação ambiental em uma perspectiva crítico-transformadora, visando a formação omnilateral dos seres humanos (BRÜGGER, 1994; GUIMARÃES, 2004; LAYRARGUES, 1999; LOUREIRO, 2000). Através de informações coletadas nos sítios do Ministério da Educação, identificamos as coleções analisadas e os pareceres do Programa Nacional do Livro Didático. Entre elas, selecionamos duas: a mais adquirida e “recomendada com ressalvas” (SCHMIDT, 2003) e a segunda mais escolhida e “recomendada com distinção” (PILETTI; PILETTI, 2003). Consideramos também os conteúdos propostos nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) do ensino fundamental para a abordagem dos temas transversais: meio Ambiente e trabalho & consumo, bem como os PCN de História. Concluímos que, na explicitação das diferenças entre seres humanos e outras espécies, os autores atribuem centralidade ao trabalho (produção de ferramentas), entendido como mediador da relação Homem-natureza. Em ambas as coleções, no que se refere à relação Homem-meio ambiente, constatamos abordagens contraditórias, pois enfatizam o “determinismo natural” sobre todas as esferas da atividade humana, inclusive a cultura; apresentam uma concepção reducionista (aspectos biológicos do meio ambiente) e antropocêntrica e também uma perspectiva dialética da relação Homem-meio ambiente, que incorpora as dimensões social, econômica e cultural da temática ambiental. Nos exercícios propostos, as coleções privilegiam a realização de “pesquisas” sobre problemas ambientais distantes (China, Amazônia etc.), em lugar da abordagem dos problemas socioambientais locais. Dessa forma, realizam uma educação ambiental desmobilizadora, em relação às reduzidas possibilidades de os alunos/professores contribuírem para a reversão desses problemas. Assim, as coleções apresentam erros conceituais e argumentos contraditórios, ora informando uma proposta de educação ambiental crítica, pautada pela matriz da equidade de desenvolvimento sustentável, ora defendendo um modelo de desenvolvimento através exclusivamente de soluções técnicas/econômicas que não questionam o nosso modo de produzir e consumir (matriz da eficiência). Considerando que esses livros didáticos influenciarão a visão de mundo de milhares de professores e alunos, sugerimos maior rigor dos diferentes níveis governamentais visando a formação de professores e o aprimoramento dos conteúdos e do tratamento das temáticas privilegiadas neste estudo, com vistas a uma efetiva educação para a cidadania.