Título
Educação Ambiental dialógica e representações sociais da água em cultura sertaneja nordestina: uma contribuição à consciência ambiental em Irauçuba - CE (Brasil)
Esta tese apresenta uma pesquisa-intervenção fundamentada na Educação Ambiental "Dialógica", nos moldes da pedagogia freireana, em uma perspectiva ecorrelacional. A investigação pretende tratar de um problema local-global: a água como lugar privilegiado no qual travamos uma discussão sobre a crise ambiental, que possui singularidades nas culturas, mas que ocorre em escala mundial. Parece-nos urgente, no contexto crítico em que nos encontramos, refletir quanto ao potencial dessas representações sociais, informações originárias do senso comum que se manifestam na linguagem, nos valores e nas atitudes como espaço-chave para uma Educação Ambiental que se propõe, política e socialmente, crítica. A pesquisa objetiva o levantamento das representações sociais da água de sujeitos-chave do povo da cidade de Irauçuba, no Sertão do Ceará, no Nordeste brasileiro. Povo que convive com a seca e a desertificação em processo, caracterizado como portador de uma cultura residualmente oral. Utilizamos na pesquisa entrevistas, observações etnográficas e história oral. Trabalhamos os dados com base na Teoria das Representações Sociais, como um procedimento que concebe os valores, o agir e a linguagem como agentes mobilizadores, permitindo contribuir para a compreensão do ponto de vista popular, dos movimentos de enfrentamento presentes nos percursos populares ante os embates sociais pela água. Como resultados, tivemos os nós críticos presentes na trajetória de sentido, no percurso desejante, dos grupos populares associados aos bairros da cidade. Evidenciam-se marcos da luta pela água: o chafariz no bairro da Barragem; a caixa d'água e a distribuição deficitária no bairro do Cruzeiro; o cata-vento defeituoso no Gil Bastos; o poço sem água no bairro da Rodoviária; o sistema de encanamento e a água que chega a cada três dias no bairro do Centro; os dejetos líquidos e esgotos no bairro da Esperança; a Estação de Tratamento de Água no bairro do Açude. Uma teia de representações sociais da água com as seguintes categorias: a invisibilidade da problemática da água e a visibilidade da falta, da cultura do silêncio e da resistência popular; a fissura entre o vivido e o pensado e a práxis na relação com a água; a naturalização, o utilitarismo e a monetarização da água; a divinização e a (in)finitude da água; a percepção de usufruto individual e bem social da água, implicando a situação-limite e o inédito viável. Como parte do processo, tivemos a intervenção por meio da constituição do fórum, do curso e dos movimentos populares instituídos ao longo do trabalho. Como (in)conclusões, observamos a confirmação de nossa ideia prévia de que é essencial pensarmos-agirmos na perspectiva evidenciada de que uma educação ambiental, para ser efetiva no tocante a reflexões-ações socioambientais, precisa ser construída em parceria com o saber popular local de modo dialógico e ecorrelacionado, possível de repercutir em transformações reais. A etapa de intervenção alcançou vincular a percepção coletiva das construções sociais locais sobre a problemática da água ao contexto politizador e criticizador mais geral do Fórum Cearense de Convivência com o Semiárido.