Título
Geociências, comunicação e cidadania: aspectos da construção de diálogos numa televisão de natureza pública
O presente trabalho investiga e discute aspectos da construção de um diálogo envolvendo atores de campos bastante distintos numa televisão de natureza pública e regional, em torno de um projeto singular: a comunicação pública da ciência como ferramenta de cidadania. O foco de nossa atenção é um modelo de tomada de decisões sobre a construção de notícias geocientíficas, particularmente as relacionadas ao meio ambiente. Procura-se, de um lado, analisar as particularidades do modelo e, de outro, discutir as dimensões dessa proposta e suas contribuições para o agendamento de questões críticas para a construção de uma sociedade sustentável, cidadã. O estudo concentra-se, principalmente, na reunião de pauta aberta à participação da comunidade. A experiência, pioneira em emissoras do Vale do Paraíba paulista, oferece argumentos não só para uma crítica da práxis jornalística mas também para que se repensem, particularmente no campo das Geociências, estratégias mais eficientes e cidadãs de comunicação pública das Ciências. Busca-se, por um lado, identificar os atores que participaram das reuniões, as estratégias utilizadas para “vender” suas ideias e/ou sugestões e o perfil das sugestões apresentadas; e, por outro, refletir sobre o encaminhamento das discussões, as negociações de enfoque e como, depois de cada reunião, os jornalistas trabalhavam com o material recolhido. Tenta-se, ao longo do trabalho, responder a três questões fundamentais: em que medida modelos estratégicos como a pauta cidadã, democráticos, contribuem para agendar conteúdos jornalísticos de natureza geocientífica na televisão? Que tipo de contribuição atores estranhos ao mundo do jornalismo (comunidade) agendam, particularmente em relação à questão ambiental (visão de valores-notícia, leituras de mundo e natureza)? E, por fim, a pauta cidadã gera compromissos, fideliza audiência? Observamos, entre outras coisas, que a comunidade, quando convocada a participar de projetos como a pauta cidadã, sente-se valorizada, tem contribuições significativas a oferecer, particularmente sobre conteúdos de natureza ambiental; no entanto, os valores-notícia presentes nas sugestões não diferem muito dos valores dominantes da mídia, assim como a visão de ambiente é uma visão fragmentada, restrita aos problemas locais, imediatista, mas que, paradoxalmente, contempla, em grande medida, a temática da sustentabilidade. A pauta cidadã agenda pelo menos três grandes debates: os riscos da abertura das arenas de decisões para cientistas e jornalistas, qual o papel do cientista e do divulgador nesse tipo de ambiente e que tipo de agenda de ciência e comunicação a comunidade constrói.